A live clássica do fascismo aparece com um militar, vestindo farda do Exército nacional, com medalhas grudadas no peito heroico, sugerindo lutas imaginadas, mas vitoriosas, vociferando contra as urnas eletrônicas e o TSE. E para infundir o medo dele e das ameaças prometidas ainda aparecia, no esquadro, robusta onça pintada, como se a live para valer devesse ter dois irracionais, um boquirroto, outro silencioso, porque fotografia.

E, ele avisou, se não atender o que o Ministro da Defesa pediu, está tudo preparado, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica irão à luta contra as urnas eletrônicas. A data escolhida para o nosso dia “D” é o dia 7 de setembro. Fiquemos com medo, desde já, o povo brasileiro saberá o que é desobedecer a raiva política, ambiciosa e cega.

O que tem de veraz e de amedrontador nesse espetáculo circense, e a comparação com esse destemor de querer atacar e destruir o símbolo da soberania popular, é justamente o ridículo.

O ridículo é no palco político o perigo. O ridículo é paciente, e avança ora devagar, ora depressa, mas avança sempre. No começo da carreira, Hitler chegou a tanto até que as instituições foram se encolhendo, encolhendo, até acontecer o que aconteceu. O ataque permanente contra as instituições democráticas é o único instrumento disponível, no cardápio da arruaça presidencial, no Brasil. Nada mais interessa à fome de poder e a seus privilégios.

As armas compradas com facilidade fogem do necessário rastreamento das Forças Armadas, que publicamente nada disseram dessa liberação a tempo e a hora, apesar de que tal aquisição beneficia milícias e a bandidagem. Na sede do império, republicanos e democratas adotaram restrições à venda de armas, em razão da estupidez facilitada para suas aquisições, que causaram tantas mortes de inocentes, o Brasil tem se colocado contra o caminho da razão, conduzindo-nos a galope à barbárie. No Japão, a restrição à compra de armas é grande, mas, mesmo assim, um maluco com arma caseira matou o primeiro-ministro Shinzo Abe, o homem mais famoso do país, em campanha eleitoral.

No Brasil, o discurso da arruaça presidencial faz adeptos, fardados e não fardados, viola as leis, debocha das instituições, julga-se ileso às garras da justiça, que ou são cortadas por um Congresso submisso às pressões das consultas eleitorais, que avizinham derrota próxima, ou pela indiferença da Procuradoria Geral da República, que deixa correr frouxo à ameaça quase diária praticada pelo chefe absoluto das forças armadas.

Nesse arranca-rabo constitucional, patrocinado por essa demência governamental, tem-se que o mais poderoso é o Presidente da Câmara dos Deputados, sentado sobre centenas de pedidos de impeachment do presidente arruaceiro. Se ele liberasse um só, provavelmente, ele não teria a força de convencimento que ele tem perante o presidente arruaceiro. A ameaça contra as instituições e as leis não está sendo tão eficiente como esse repouso ameaçador sobre centenas de pedidos de impeachment.

A coragem indômita daquele militar, no vídeo, querendo provar ser maior o seu do que o irracionalismo da onça, deveria pensar nas imensas fronteiras secas e não secas do Brasil com outros países, em especial no Vale do Javari, onde o indianista brasileiro e o jornalista britânico foram mortos, para vergonha do Brasil. O Brasil ali está entregue aos traficantes, à mineração ilegal, às drogas internacionais, como se não tivéssemos gente corajosa, como esse militar e sua onça, que deveria usar toda sua energia não para combater as urnas eletrônicas, mas os bandidos que agem à solta nas fronteiras e dentro delas.

Há quem diga até que o ouro brasileiro sai, agora, de avião para as Guianas, como se saísse da casa da sogra, muda e surda. E nessa ida, o militar e a onça levassem junto com ele, por designação formal, os militares que estão no bem-bom da administração pública, e que plantariam sua vigilância ali, naquele canto que o mundo já sabe que está sob o domínio de quem não deve estar, e muito menos dominar. A razão pública alega que o Congresso não destinou verba para isso, mas nada falam do orçamento secreto, que destinou cinquenta milhões a um só senador, que quando recebeu se assustou, e o disse publicamente, e está ameaçado de expulsão do seu partido, porque falou demais. Como na máfia, quem fala demais merece morrer.

Brizola, esse exemplo de coragem cívica, sempre dizia que o Rio de Janeiro não produz cocaína, nem fabrica armas, as drogas continuam entrando por mar, terra ou ar, e com um gravame: na Espanha, acompanhante militar da comitiva de nosso arruaceiro presidencial foi preso com quarenta quilos de drogas. Até hoje ele não contou quem o ajudou.

O surto atual do fascismo brasileiro tem como uma das fontes a misericórdia da anistia política, que estampa o malefício histórico contra a democratização real do país, como um sinal.