• Biografia

Feres Sabino

~ advogado

Feres Sabino

Arquivos do Autor: Feres Sabino

A prisão do preconceito

04 quarta-feira nov 2015

Posted by Feres Sabino in blog

≈ Deixe um comentário

A população carcerária do país, a quarta do mundo, é de 640 mil presos, e desse total 12% cumprem pena por homicídio doloso. E esse número só não é maior porque a policia só investiga 8% dos 56 mil homicídios que ocorrem anualmente no país, e também porque há ainda um volume grande de mandados de prisão não cumpridos. Os números estão na entrevista do sociólogo Luiz Eduardo Soares, publicada no Suplemento Semanal do jornal Valor.

Ainda existem 500 mil mandados de prisão para serem cumpridos, estimativa que não inclui todos os estados brasileiros, apesar de o Conselho Nacional de Justiça ter instituído órgão de armazenamento de dados e controle visando um planejamento mais realista.

Pairando sobre essa realidade dramática, não concorre somente falta de recursos financeiros. Mais do que essa carência, concorre o preconceito difuso na sociedade, que impede um olhar de racionalidade a esse segmento da própria sociedade que, como primeira reação, preconceituosamente, ela rejeita. Trata-se de uma dificuldade à política de reintegração do preso, que, se concebida com racionalidade eficaz, custaria menos de R$ 1.800,00 do que custa, por mês, cada um.

A consequência desse preconceito pulula no interior dos presídios, cuja maioria da população é composta sobretudo de jovens, negros e pobres. E algumas histórias provam sua existência dramática, como também destacam a violência interna do encarceramento. Como mera ilustração, há duas.

Um jovem negro, ex-ponta-esquerda do Santo André, revelou assim o drama de sua segunda prisão: “eu cometi um delito, cumpri minha pena. Sai, arrumei emprego, uma namorada, marquei casamento até. Mas o patrão soube que eu estive no Carandiru e perdi meu emprego, perdi minha namorada, cometi novo delito, e voltei para cá”.

A outra história é a do agradecimento de um preso ao chefe da fábrica de calçados da Penitenciária de Tremembé. O chefe chegou de manhã, encontrando o preso conversando com um guarda da prisão. Cumprimentou-os, declinando o nome de cada um: “Bom-dia, Antônio. Bom-dia, José!”. Dias depois, o preso procurou o chefe da fábrica, agradecendo-o, e lhe dizendo que ele salvara a sua vida. Surpreso, ele exclamou: “Eu salvei a sua vida? Como? Quando?”. A resposta veio assim: “Aquele dia de manhã, quando eu conversava com o guarda, você me cumprimentou declarando meu nome. Eu estava decidido a me enfocar com essa cordinha, mas sua saudação respeitosa fez com que eu desistisse da morte. Fazia mais de dez anos que ninguém me chamava pelo nome”.

O primeiro caso ressalta o preconceito que invade todos os escalões da sociedade, ampliado em sua intensidade pelas notícias da criminalidade que os programas televisivos, como verdadeiras fábricas de alienação, potencializam, instigando maior insegurança e maior medo, que vitimam mais seus telespectadores.

No segundo caso, se a ausência de autoestima prevalece nos crimes mais hediondos, a prisão, já no primeiro momento, retira o que individualiza a pessoa. Seus trajes e seus adereços são entregues à obediência devida à homogeneidade das regras. Depois, a convivência nas celas abarrotadas de outras tantas pessoas, algumas violentas, outras exigentes de submissão sexual. Essas são penas acessórias, que não integram a sentença judicial, mas que vigoram na intimidade daqueles espaços pequenos, como realidade nua e crua.

Nesse sistema prisional, a chamada ressocialização converte-se em conquista de heróis, que, cumprindo a pena, conseguem integrar-se à sociedade, querendo esquecer o que faz parte de sua história.

Uns conseguem conviver com o outro que se fixou dentro deles, outros não aceitam o que foram, ou se identificam, de vez e para sempre, com o que tinham sido, não suportando o outro de si mesmo.

Compartilhar:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) 18+
  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
Curtir Carregando...

O empresariado e o poder público

14 quarta-feira out 2015

Posted by Feres Sabino in blog

≈ Deixe um comentário

Para Ribeirão Preto, a experiência relatada sob o título “Gestores sem fronteiras”, publicado no suplemento Cultura & Estilo do jornal Valor de 2 de outubro de 2015, não mais serve de possibilidade imediata, porque o critério do grupo empresarial Juntos pelo Desenvolvimento Sustentável exige, como critério, que a parceria não se faça com governo reeleito, talvez porque tenha optado por ter mais tempo para realizar o programa.

Mas a realidade está aí para ser assumida proximamente (quem sabe?) por qualquer cidade que queira ser revitalizada aproveitando a faceta do chamado “espírito animal”, agrupado para melhorar a gestão pública do país por meio de municípios que aceitem as condições colocadas por esse colegiado formado pelo que há de mais vitorioso no mundo dos negócios do Brasil. Vou destacar quatro nomes para que se tenha noção da responsabilidade ética e social em marcha, esquecendo injustamente, mas por escassez de espaço, o nome de tantos outros: José Roberto Marinho, José Ermírio de Moraes Neto, Carlos Jereissati Filho e Rubens Ometto.

O grupo escolheu atuar junto às prefeituras pela proximidade delas com a população. Não há segredo nessa ação política parceira, pois ganha prioridade a equação constitucional da receita, que é estimada, e da despesa, que é certa. Só que o chamado equilíbrio fiscal, absolutamente necessário para uma boa gestão, parte de medidas simples, como uma das adotadas pela cidade de Campinas, que foi a primeira a consumar a parceria, “[…] simplificar o processo de liberação alvará para residência até 500 metros quadrados e instituições e comércio de até mil metros quadrados, o que cobre 80% por cento dos casos”. A liberação de execução de obras, que em tantos municípios demora meses, em Campinas dura 48 horas.

Essa parceria iniciada em 2013 tirou a prefeitura de Campinas do vermelho, onde estava há mais de vinte anos.

Em Paraty, que celebra anualmente o encontro internacional de literatura, a providência foi recadastrar casas e estabelecimento. De 15 mil imóveis só 3 mil deles recolhiam o IPTU, o número de pousadas passou de 60 para 400, e a legalização de embarcações fez o número delas ir de 3 para 80. A providência tornou-se tábua de salvação do orçamento municipal, pois a receita criada compensou os royalties reduzidos do petróleo. Lá não tinha água tratada, agora a rede de água atinge 100% da cidade

Em Pelotas, a ação foi na área da saúde, e a qualificação das unidades de saúde possibilitou o aumento de 30% nos atendimentos, enquanto em Teresina ocorreu o aumento da arrecadação, deixando para essa etapa seguinte a diminuição das despesas.

O Juntos atua em doze municípios de seis Estados: além de Campinas, Juiz de Fora, Paraty, também está em Curitiba, Pelotas, Santos, Teresina e Itirapina. Além disso, funciona em modelo de consórcio com Brotas, Corumbataí, Limeira e São Carlos.

Sabe-se que muitas providências dependem de alteração de leis, o que demanda a necessidade de articulação política entre o Legislativo, os partidos e a sociedade civil. Aliás, na composição do secretariado deve prevalecer um nome que tenha qualificação técnica. Por isso, tem-se como absolutamente necessária a divulgação massiva da experiência, para que a população e suas associações não só acompanhem a ação conjunta, como também sirvam de sustentáculo para qualquer retrocesso à velha prática política de mudar tudo para ficar tudo igual. Afinal, o projeto não é partidário.

A finalidade dessa parceria a custo zero é a qualidade dos serviços públicos, cujo destinatário é a população, o que equivale dizer que a finalidade é a dignidade de cada pessoa e seu direito à cidade.

Se no país existem 5,5 mil municípios, é impossível que Juntos esteja em todos eles, assim – dizem eles – é preciso que haja replicação, o que impõe o eco do excelente trabalho assinado pelos jornalistas João Luiz Rosa e Sergio Ruck Bueno.

Tem mais. A cidade é escolhida para ingressar no programa independentemente de filiação partidária.

Compartilhar:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) 18+
  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
Curtir Carregando...

O cala-boca da lei

11 domingo out 2015

Posted by Feres Sabino in blog

≈ Deixe um comentário

O advogado-geral da União está sendo acusado de despertar a ira da solidariedade corporativa no colegiado do Tribunal de Contas da União, quando apresentou o pedido de suspeição do ministro-relator das contas do governo relativas ao exercício de 2014.

Se houve erro, ele fica restrito ao mero critério de oportunidade, pois ele deveria ter apresentado esse pedido muito antes, quando o ministro começou a explicar à imprensa o que julgava descontrole governamental. Uma forma de mobilização política de pessoas e de partidos.

Está difícil argumentar com o cuidado da racionalidade num ambiente político contaminado de prevenção, de interesses políticos-eleitorais, quando não de preconceito e ódio.

Entretanto, está virando moda no Brasil um ou outro magistrado, para não falar de outras autoridades, ocupar o palco da divulgação midiática para expor sua opinião pessoal, geralmente contra um partido político ou contra a presidente da República.

Estranha-se esse extravasamento, já que a carreira de magistrado, assim como qualquer outra carreira de Estado, está marcada pelo sinete de discrição, de recato, de equilíbrio, entre outros requisitos. Em razão disso, o dever é falar nos autos do processo, lugar único sobre o qual deverá expressar sua opinião.

Nada de discurso político, até quando da declaração de seu voto, quando disse ter o Poder Executivo ofendido o Poder Legislativo, não respeitando tal ou qual lei.

O ministro do Tribunal de Contas tem as mesmas prerrogativas dos ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Por consequência, aplica-se a ele o Código de Ética da Magistratura, editado pelo Conselho Nacional de Justiça, “que sublinha a exigência de uma ética prudencial”, e comentado pelo desembargador José Renato Nalini, em seu livro Ética da Magistratura, publicado pela Revista dos Tribunais. Nessa obra, estão os requisitos impostos à atuação dos magistrados, e dentre eles está a “prudência”, com seus sinônimos: “[…] acerto, advertência, assento, cautela, circunspecção, comedimento, discrição, equilíbrio, juízo, moderação, precaução, prumo, recato, reflexão, resguardo, sabedoria, serenidade”.

O magistrado deve guardar discrição para não acontecer o que aconteceu, pois se tornou impossível ao menos um voto contra, já que se criou um natural constrangimento no ambiente, que converteu o julgamento em celebração de herói, erguido pelo levante da solidariedade corporativa. Tudo porque a Advocacia da União, no exercício de um direito, não fez antes o que deixou para depois.

Há precedente intolerável desse ativismo até no Supremo Tribunal Federal, pois não se arguiu, depois de tantas, nenhuma vez a suspeição do ministro Gilmar Mendes, que faz o que não devia fazer, como essa de ficar retendo por mais de doze meses a ação proposta pela Ordem dos Advogados do Brasil relativa ao financiamento eleitoral das empresas, quando a maioria do plenário já decidiu a questão. Não bastasse essa ousadia de retenção indevida, ainda acusou destemperadamente a Ordem dos Advogados de ser um braço de partido político, interessado na corrupção do enriquecimento ilícito. Mas não fica aqui.

No julgamento dos Embargos Infringentes, na época do mensalão, opinou publicamente contra a admissão de tal recurso para indiretamente pressionar, às vésperas do julgamento, o então relator ministro Celso de Melo. O bom desse julgamento é que com o brilhante voto, ele explicou a história do instituto e sua legalidade vigente, entremeando-a com sua invejável cultura jurídica.

Em suma, carreira de Estado é identificada pela marca da discrição, do recato, até porque o julgador deve ser imparcial, qualidade que não está escrita na Constituição, mas está prevista na Convenção Europeia de Direitos Humanos. Impossível compreender a dignidade da magistratura sem essa qualidade ou esforço de imparcialidade.

A carreira da exibição é a carreira política, esta que é decidida no silêncio e na soberania das urnas, expressando a fonte e força de atuação de todos os servidores de todas as instituições, como de todas as leis – a nação, o povo. Eis a fonte.

Compartilhar:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) 18+
  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
Curtir Carregando...
← Posts mais Antigos
Posts mais Recentes →

Posts recentes

  • O dever e o direito à informação
  • Sobre e da guerra
  • O nome dele é Fernando Haddad
  • Da hipocrisia ao ataque traiçoeiro
  • O humanismo de David Grossman

Arquivos

  • março 2026
  • fevereiro 2026
  • janeiro 2026
  • dezembro 2025
  • novembro 2025
  • outubro 2025
  • setembro 2025
  • agosto 2025
  • julho 2025
  • junho 2025
  • maio 2025
  • abril 2025
  • março 2025
  • fevereiro 2025
  • janeiro 2025
  • dezembro 2024
  • novembro 2024
  • outubro 2024
  • setembro 2024
  • agosto 2024
  • julho 2024
  • junho 2024
  • maio 2024
  • abril 2024
  • março 2024
  • fevereiro 2024
  • janeiro 2024
  • dezembro 2023
  • novembro 2023
  • outubro 2023
  • setembro 2023
  • agosto 2023
  • julho 2023
  • junho 2023
  • maio 2023
  • abril 2023
  • março 2023
  • fevereiro 2023
  • janeiro 2023
  • dezembro 2022
  • novembro 2022
  • outubro 2022
  • setembro 2022
  • agosto 2022
  • julho 2022
  • junho 2022
  • maio 2022
  • abril 2022
  • março 2022
  • fevereiro 2022
  • janeiro 2022
  • dezembro 2021
  • novembro 2021
  • outubro 2021
  • setembro 2021
  • agosto 2021
  • julho 2021
  • junho 2021
  • maio 2021
  • abril 2021
  • março 2021
  • fevereiro 2021
  • janeiro 2021
  • dezembro 2020
  • novembro 2020
  • outubro 2020
  • setembro 2020
  • agosto 2020
  • julho 2020
  • junho 2020
  • maio 2020
  • abril 2020
  • março 2020
  • fevereiro 2020
  • janeiro 2020
  • dezembro 2019
  • novembro 2019
  • setembro 2019
  • agosto 2019
  • julho 2019
  • junho 2019
  • maio 2019
  • abril 2019
  • novembro 2018
  • outubro 2018
  • agosto 2018
  • julho 2018
  • junho 2018
  • maio 2018
  • abril 2018
  • março 2018
  • fevereiro 2018
  • janeiro 2018
  • dezembro 2017
  • novembro 2017
  • outubro 2017
  • setembro 2017
  • agosto 2017
  • julho 2017
  • junho 2017
  • maio 2017
  • abril 2017
  • março 2017
  • fevereiro 2017
  • janeiro 2017
  • dezembro 2016
  • novembro 2016
  • outubro 2016
  • setembro 2016
  • agosto 2016
  • julho 2016
  • junho 2016
  • maio 2016
  • abril 2016
  • março 2016
  • fevereiro 2016
  • janeiro 2016
  • dezembro 2015
  • novembro 2015
  • outubro 2015
  • setembro 2015
  • agosto 2015
  • julho 2015
  • junho 2015
  • maio 2015
  • abril 2015
  • março 2015
  • fevereiro 2015
  • dezembro 2014
  • julho 2014
  • junho 2014
  • maio 2014
  • abril 2014
  • março 2014
  • dezembro 2013
  • novembro 2013
  • setembro 2013
  • agosto 2013
  • julho 2013
  • junho 2013
  • maio 2013
  • março 2013
  • fevereiro 2013
  • janeiro 2013
  • agosto 2012
  • junho 2012

Categorias

  • blog

Meta

  • Criar conta
  • Fazer login
  • Feed de posts
  • Feed de comentários
  • WordPress.com

Blog no WordPress.com.

  • Assinar Assinado
    • Feres Sabino
    • Junte-se a 58 outros assinantes
    • Já tem uma conta do WordPress.com? Faça login agora.
    • Feres Sabino
    • Assinar Assinado
    • Registre-se
    • Fazer login
    • Denunciar este conteúdo
    • Visualizar site no Leitor
    • Gerenciar assinaturas
    • Esconder esta barra
%d