• Biografia

Feres Sabino

~ advogado

Feres Sabino

Arquivos de Categoria: blog

A Transerp na teia da lei

09 terça-feira ago 2016

Posted by Feres Sabino in blog

≈ 1 comentário

A Empresa de Trânsito e Transporte Urbano de Ribeirão Preto (Transerp) foi arrastada a um debate judicial rico e ilustrado desde que a empresa de economia mista de Belo Horizonte, tal como ela, a Empresa de Transporte e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans), teve contra si acórdão do Superior Tribunal de Justiça declarando a sua impossibilidade de exercer o poder de polícia e, portanto, sem competência legal para aplicar multa de trânsito.

Em decisão que beneficia a Transerp, acórdão recente do Tribunal de São Paulo estabelece uma distinção entre uma e outra empresa, ou seja, a de lá, de acordo com o ato que a constituiu, exerce atividade econômica, o que resulta sua finalidade de lucro, e a de cá não exerce atividade econômica. Assim, o julgamento de uma não se aplicaria à outra.

Porém, a questão fundamental é definir se o Poder Público pode constitucionalmente, em relação à sociedade de economia mista, delegar a ação de autuar e impor multa de trânsito. O Superior Tribunal de Justiça já decidiu que só o poder de fiscalizar é que pode ser delegado. Assim, para multar não há competência legal.

O assunto, porém, está no Supremo Tribunal Federal, sem uma decisão final, pois, para essa questão do empréstimo de poderes da polícia de trânsito à empresa de economia mista foi reconhecida a repercussão geral, ou seja, essa matéria se inclui na previsão legal de relevância do ponto de vista econômico, político, social ou jurídico que ultrapassa os direitos dos que são partes no processo.

Outra questão desdobrada é a da Guarda Municipal autuando e sancionando, que também está na última instância do Poder Judiciário. Por hipótese, julgada inconstitucional a autuação e a cobrança realizada pela Transerp, o plenário do Supremo Tribunal poderá proceder à modulação, que ultrapassa a declaração de inexistência da regra inconstitucional, fixando a partir de qual data ela passa a valer. Se não tiver essa modulação, a Transerp terá que devolver o que recebeu a título de multa de trânsito, ficando vencido o prazo de cinco anos, porque a inconstitucionalidade declarada revela o maior dos defeitos dos atos, e com razão, pois o Poder Público é regido por tantos princípios sobre os quais paira o da legalidade.

Compartilhar:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) X
  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
Curtir Carregando...

A nanica ideia da “escola sem partido”

29 sexta-feira jul 2016

Posted by Feres Sabino in blog

≈ Deixe um comentário

Se essa quadra de nossa história não fosse tão propícia à mediocridade, seguramente essa ideia da “escola sem partido” não passaria da sarjeta de qualquer discussão séria sobre a estruturação ideológica e democrática do país.

Contudo, o Projeto de Lei está no Senado Federal, prevendo uma tabuleta na sala de aula do ensino fundamental e médio, elencando os “deveres do professor”. Dentre os seis, o primeiro deles seria: “O professor não se aproveitará da audiência cativa dos alunos para promover os seus próprios interesses, opiniões, concepções ou preferências ideológicas, religiosas, morais ou religiosas e partidárias”.

A escola é um cativeiro declarado e reconhecido para quem concebeu tal programa. Seu inventor não se traiu, ele parte do princípio de que a escola é um cativeiro, dizendo claramente “não se aproveitará da audiência cativa dos alunos”. Só pela consagração desse pressuposto tem-se a naniquice dessa ideia maluca, que deseja mesmo criar a escola-cativeiro.

Compare-se essa ideia maluca com que aconteceu no país de 1946 a 1964, no império da tolerância democrática. No período de 1955 a 1960, floresceram as artes; novas ideias na política, com o traçado de um nacionalismo sem xenofobia, no qual a ideia de pátria era imperante; as letras com novos poetas; e a música germinou e projetou para o mundo a bossa nova. Na política, a ousadia da criação de Brasília, seu traçado urbanístico e sua invenção arquitetônica genial.

Naquele período, no Ginásio do Estado de Ribeirão Preto, depois Instituto de Educação Otoniel Mota, institui-se o Parlamento Estudantil, ideia do professor de latim Lourenço da Silva Torres. A ventilação das ideias e os olhares juvenis para o mundo eram múltiplos. Na aula de geografia, uma vez por mês, um aluno falava sobre um problema nacional. Assim, quando chegou a hora da universidade, o acesso foi fácil, e nela o exercício da retórica e do bem escrever no reino do ginásio gozava da liberdade de pensamento, enriquecedora em qualquer espaço. Sentia-se a construção de uma identidade nacional.

Agora, sob o pretexto de eventual proselitismo político numa sala de aula, concebe-se a dissimulada camisa de força para efetivamente restringir a expressão livre de tal ou qual ideia ou pensamento, ao invés de apresentarem uma proposta realista para a formação ininterrupta do professor numa escola integral para o ensino fundamental com um método dialogante, que tenha por base a realidade que circunde cada um.

A expressão de uma ideia, qualquer que ela seja, representa a projeção de um corpo de ideias que constituem a visão de mundo de quem a expressa e declara.

Na verdade, essa de “escola sem partido” revela uma ideologia que deseja excluir qualquer outra, esquecendo-se de que “nada é mais perigoso do que um homem de ideias, mas quando ele tem uma só”.

Essa utopia já esbarou institucionalmente na postura do Ministério Público Federal, que a considera acertadamente inconstitucional, pois é contra o pluralismo, consagrado no pacto da convivência social do Brasil, que é a nossa Constituição.

Porém, essa utopia autoritária está confundindo pessoas, enganadas por um tipo de neutralidade absurda, nesse ambiente de prevenção, preconceito e medo que emerge ora por vez na sociedade.

Aliás, a última utopia que prevaleceu durante anos na formação e na vida dos estudantes e profissionais das ciências jurídicas foi a da neutralidade dos juízes e da imparcialidade do Ministério Público.

Na verdade, a jurisprudência já transcreve a doutrina da impossibilidade de se acreditar nessa utopia de neutralidade, simplesmente porque, como seres humanos, estamos envolvidos em um feixe de relações e de interesses humanos, profissionais, sociais e ideológicos, marcados pela nossa educação, que trazem infiltradas as nossas emoções, os nossos sentimentos, os nossos traumas. No caso das autoridades, que devem decidir em conformidade com as leis e com a Constituição, deve-se acreditar realisticamente no esforço honesto para serem imparciais na aplicação da lei, pressionadas tão só pelo dogma da dignidade de cada pessoa, convertida em princípio constitucional.

Muito ao contrário do que propõe esse projeto de “educação sem partido”, o Brasil, até como convergência étnica na sua formação histórica, deve abrir-se sempre mais para descobrir, atrasadamente, sua identidade e inserir-se adequadamente no mundo globalizado, como dono de si mesmo, como nação e como pátria. Para isso, a fonte criadora é a da liberdade absoluta de expressão nas escolas, nas universidades e na sociedade.

Compartilhar:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) X
  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
Curtir Carregando...

Nice e a gramática do tempo

22 sexta-feira jul 2016

Posted by Feres Sabino in blog

≈ Deixe um comentário

A morte de dezenas de pessoas e a existência de centenas de feridos, inclusive crianças, na cidade de Nice, na França, é uma tragédia inominável. Não há ser humano que possa deixar de prestar sua solidariedade e rezar para exorcizar, mais uma vez, o vento da tragédia que encobre pessoas e povos deste planeta Terra.

O ato tresloucado foi apresentado como ato terrorista, na sequência da desgraça que assolou a França e a Bélgica, e assim a Europa, e assim, outra vez, o mundo.

Porém, a história do motorista morto não coincide com essa versão de ato terrorista, julgado de início como tal por conta do que ocorreu no passado recente e do ambiente contaminado que facilmente nos induz a essa história fácil de explicar.

O noticiário registra a existência de armas e granadas no caminhão, sem dizer nem quantas nem quais. No entanto, esse suposto arsenal não suporta um exame crítico, ainda que singelo, para se dizer ato terrorista, já que tal armamento sugere entrega a alguns terroristas que estivessem esperando o caminhão chegar, ali no ponto x? Mas o veículo estava em velocidade e em zigue-zague, não havendo possibilidade de se supor que ele pararia para entregar tal ou qual arma a comparsas. Não seria lógico que algum ou alguns deles, se existentes, estivessem com ele, para descer, com o caminhão vindo em pequena velocidade para não criar pânico antecipado, estacionando para que eles jogassem as granadas e matassem à vontade, atirando a granel? Não seria mais adequado a um terrorista explodir o caminhão com ele dentro? O estrago não seria maior? O mundo não ficaria mais estremecido?

A dúvida começa a crescer quando o pai do motorista, que reside na Tunísia, declarou que ele procurou a ajuda de um psiquiatra e estava tomando remédios, porque estaria muito violento. Ainda mais, estaria se separando da mulher, tinha antecedente criminal recente, e não era monitorado pelos órgãos de segurança.

Houve repórter brasileira que entrevistou pessoas que moravam próximas à casa do motorista, e aqui surgem os sinais fortes que destroem a suspeita de terrorismo. O motorista morto não era religioso, no dia do Ramadã, que é sagrado para o Islamismo, ele não guardou nenhum respeito, e dias antes ele estava literalmente bêbado, como um cachaceiro de alto coturno. O Islamismo proíbe a bebida.

O que convém ao Estado Islâmico declarar? A reflexão de Vladimir Safatle é adequada para essa resposta, pois o Estado Islâmico “[…] necessita que ataques terroristas reverberem no mundo inteiro, com imagens se repetindo obsessivamente, comentadas por jornalistas com seu espanto ensaiado, para afinal alimentar mais ataques com essa promessa tácita de sucesso de audiência […]”. É convenientemente natural, pois, que o Estado Islâmico declare que o tresloucado motorista era um “soldado” seu.

O filósofo de Quando as ruas queimam, que será lançado brevemente, ainda segue prelecionando: “o gosto macabro pela visibilidade de eventos de violência espetacular é apenas a prova da necessidade contínua de catástrofes e de circulação de insegurança como prática de governo. Como já dizia Durkheim, e isso nossos governos sabem bem, o crime não é uma patologia social, mas um dispositivo fundamental para o fortalecimento da coesão”.

O mundo que difunde qualquer ato de brutalidade como um ato terrorista, porque o criminoso seria um “soldado” de uma ideologia de destruição, é um mundo que se encaminha para uma loucura igual à que combatem.

E o homem, perplexo e quase sempre com medo, está no meio dessa loucura, que é a gramática de nosso tempo.

Compartilhar:

  • Imprimir(abre em nova janela) Imprimir
  • Envie um link por e-mail para um amigo(abre em nova janela) E-mail
  • Compartilhar no X(abre em nova janela) X
  • Compartilhar no Facebook(abre em nova janela) Facebook
Curtir Carregando...
← Posts mais Antigos
Posts mais Recentes →

Posts recentes

  • Ganhar ou Perder
  • O Estado desfeito
  • De lição em lição, assim segue a humanidade
  • A queda de energia, prejuízo
  • O dever e o direito à informação

Arquivos

  • abril 2026
  • março 2026
  • fevereiro 2026
  • janeiro 2026
  • dezembro 2025
  • novembro 2025
  • outubro 2025
  • setembro 2025
  • agosto 2025
  • julho 2025
  • junho 2025
  • maio 2025
  • abril 2025
  • março 2025
  • fevereiro 2025
  • janeiro 2025
  • dezembro 2024
  • novembro 2024
  • outubro 2024
  • setembro 2024
  • agosto 2024
  • julho 2024
  • junho 2024
  • maio 2024
  • abril 2024
  • março 2024
  • fevereiro 2024
  • janeiro 2024
  • dezembro 2023
  • novembro 2023
  • outubro 2023
  • setembro 2023
  • agosto 2023
  • julho 2023
  • junho 2023
  • maio 2023
  • abril 2023
  • março 2023
  • fevereiro 2023
  • janeiro 2023
  • dezembro 2022
  • novembro 2022
  • outubro 2022
  • setembro 2022
  • agosto 2022
  • julho 2022
  • junho 2022
  • maio 2022
  • abril 2022
  • março 2022
  • fevereiro 2022
  • janeiro 2022
  • dezembro 2021
  • novembro 2021
  • outubro 2021
  • setembro 2021
  • agosto 2021
  • julho 2021
  • junho 2021
  • maio 2021
  • abril 2021
  • março 2021
  • fevereiro 2021
  • janeiro 2021
  • dezembro 2020
  • novembro 2020
  • outubro 2020
  • setembro 2020
  • agosto 2020
  • julho 2020
  • junho 2020
  • maio 2020
  • abril 2020
  • março 2020
  • fevereiro 2020
  • janeiro 2020
  • dezembro 2019
  • novembro 2019
  • setembro 2019
  • agosto 2019
  • julho 2019
  • junho 2019
  • maio 2019
  • abril 2019
  • novembro 2018
  • outubro 2018
  • agosto 2018
  • julho 2018
  • junho 2018
  • maio 2018
  • abril 2018
  • março 2018
  • fevereiro 2018
  • janeiro 2018
  • dezembro 2017
  • novembro 2017
  • outubro 2017
  • setembro 2017
  • agosto 2017
  • julho 2017
  • junho 2017
  • maio 2017
  • abril 2017
  • março 2017
  • fevereiro 2017
  • janeiro 2017
  • dezembro 2016
  • novembro 2016
  • outubro 2016
  • setembro 2016
  • agosto 2016
  • julho 2016
  • junho 2016
  • maio 2016
  • abril 2016
  • março 2016
  • fevereiro 2016
  • janeiro 2016
  • dezembro 2015
  • novembro 2015
  • outubro 2015
  • setembro 2015
  • agosto 2015
  • julho 2015
  • junho 2015
  • maio 2015
  • abril 2015
  • março 2015
  • fevereiro 2015
  • dezembro 2014
  • julho 2014
  • junho 2014
  • maio 2014
  • abril 2014
  • março 2014
  • dezembro 2013
  • novembro 2013
  • setembro 2013
  • agosto 2013
  • julho 2013
  • junho 2013
  • maio 2013
  • março 2013
  • fevereiro 2013
  • janeiro 2013
  • agosto 2012
  • junho 2012

Categorias

  • blog

Meta

  • Criar conta
  • Fazer login
  • Feed de posts
  • Feed de comentários
  • WordPress.com

Blog no WordPress.com.

  • Assinar Assinado
    • Feres Sabino
    • Junte-se a 58 outros assinantes
    • Já tem uma conta do WordPress.com? Faça login agora.
    • Feres Sabino
    • Assinar Assinado
    • Registre-se
    • Fazer login
    • Denunciar este conteúdo
    • Visualizar site no Leitor
    • Gerenciar assinaturas
    • Esconder esta barra
%d