O partido político, quando e se organizado, classicamente é um intermediário entre as necessidades sociais e o poder político.
Essa rigidez de representação foi se quebrando, à medida que a consciência democrática foi se expandindo. E não esgotavam e não esgotam toda a expressão das necessidades.
A primeira ocorrência dessa alteração, em tempo de nossa militância, para ficar nos estreitos da experiência pessoal, emergiu na cidade de Piracicaba, quando associações de moradores se organizaram de tal maneira, sob o incentivo de um prefeito avançado, e a movimentação delas era considerada concorrente dos Vereadores.
Hoje, a qualificação se ajustou para que sejam tais associações e tantas outras respeitadas e ouvidas, como legítimos grupos de pressão, que ocupam seus respectivos lugares no mapa social e constitucional do Brasil, celebrando a participação social.
Um derivativo disso podem ser os chamados mandatos coletivos, em razão dos quais há forte pregação em campanhas eleitorais. A experiência vitoriosa e pioneira foi na Suécia, e no Brasil ela ganha adesão atual em “gabinetes parlamentares” divididos com pessoas que voluntariamente participam de discussão sobre a pauta, ou sobre o que deve constituir projeto de lei.
Sabe-se, hoje, que a experiência do associativismo ganhou forte densidade na teoria, incentivada pela prática que não está só no âmbito nacional.
Mas participação política que engloba muitos que não são membros de partido político algum. Esses membros assumem dois requisitos essenciais – o da lealdade e o da disciplina – que devem ser cumpridos, para que não confundam o lugar onde se encontram com lugar de lotérica de aposta, ou de um mero degrau ofertado à ambição do poder e ao oportunismo. Afinal, quem chega antes bebe água limpa. Água limpa às vezes não deve ser usada nem como figura de retórica na política.
Essa reflexão está sobre a maneira e o modo como ocorreu a adesão do atual governador de São Paulo ao esquema do segundo turno. Ela aconteceu imediatamente após o resultado do primeiro turno, quando o atual governador, sozinho e correndo, foi até o aeroporto comunicar ao Presidente da República que estaria com ele, no segundo turno. Até ele deve ter ficado surpreso com tal pressa, apressada. Mas o governador, depois, soube da concorrência de um outro apressado, que não foi ao aeroporto, mas gravou live verborrágica. Mas o atual governador, tal a sua cara dura, que não se envergonhou ao saber do candidato que disputa o segundo turno com apoio do governo federal, um desprezo absoluto: “não o quero em meu palanque”. Na hora surgiu o velho ensinamento da política – “amamos a traição, odiamos o traidor”.
Apoio político exige o mínimo de coerência pessoal e histórica, um compromisso transparente, uma dignidade na conduta. Líder político não adere ao opositor desprezando o partido político ao qual ele pertence. É verdade ser ele, governador, um membro de ocasião do PSDB, pois nele ingressou só para ser candidato e nas vésperas de sua indicação, mas aderir ao opositor, imediatamente após o resultado das urnas, caracteriza um desprezível gesto de oportunismo político, que agride violentamente a história de lutas comuns, a lealdade que vigorou durante tanto tempo para tais lutas e destrói a disciplina regente da atuação de todos, ali, no partido político.
No caso de São Paulo, houve secretários que pediram, dignamente, demissão diante do tal “gesto pessoal”. É assim que foi apresentada a justificativa dele, nunca confissão de naniquice ética inimaginada, mesmo por quem se apresentou de paraquedas para ser governador, adotando o PSDB, como obra de quem deu aula de traição política, o ex-governador Dória.
O PSDB (PARTIDO DA SOCIAL-DEMOCRACIA BRASILEIRA), sua história, seus fundadores, seus membros, sua militância, que tanto lutaram para a construção democrática desse país, não mereciam essa facada nas costas, que não teve o cuidado ético de ouvir, antes, Fernando Henrique, Serra, Tasso Jereissati, Aloysio Nunes, José Aníbal, que manifestaram opinião contrária à dele. Ele agiu (ou saíram) como se estivesse(m) requebrando em prostíbulo pobre, querendo louca e ansiosamente agradar o novo e rico cliente. Afinal, uma proposta de união estável, visando os cargos que estão aí…
Quem trai não merece ser seguido. Se o fundador do Cristianismo foi Cristo, Judas, o traidor, só serviu para ensinar o que não se deve fazer, para quem se deve lealdade e fidelidade. Essa lição serve a todos, por analogia, pois, ele, traidor, sempre é e será um reles traidor.
