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O milagre da ternura

24 quarta-feira jun 2020

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Neste momento em que bate à porta do país a sanha militaresca, o filme “Milagre da cela 7” (Netflix) serve de contraponto à onda da desgraça que se avizinha. A direção é de Mehmet Ada Öztekin; um filme turco.

A criança, filha de um chefe militar, cai de um quase-penhasco e morre afogada no mar. O pai assume, descontroladamente, a certeza de que o culpado é Memo, um homem que, na realidade, tentara salvá-la.

O acusado era um homem tido por normal por uns, anormal para outros. Na verdade, trejeitos e falas entrecortadas, olhares desviantes, uma deficiência intelectual não escondia a abundância de amor de Memo por sua filha, Ova, órfã de mãe, cuja leveza de alma, de rosto e de expressão correspondia grandemente ao sentimento afetuoso do pai.

Culpado, a força da autoridade vingadora coloca-o na prisão, junto com outros condenados. Transpirou para eles o motivo da prisão daquele homem estranho. Não lhe faltaram tapas e pontapés pela criança morta. Chutes derrubaram o infeliz, quebrando-lhe costelas, inflamando o rosto com o capricho das porradas. Foi para a enfermaria e se recuperou. Voltou à cela 7.

Ova queria ver o pai, pensava nele, sonhava com ele. O chefe militar determinara o isolamento completo do acusado. A avó, a professora e a menina foram ao presídio, em que receberam a desesperada negativa de não poder vê-lo.

Enquanto os adultos conversavam, a criança sai correndo e grita “papai”, “papai”, até chegar a um muro alto, que separa a voz da filha do pai distraído com seus companheiros.

O grito de um foi ouvido pelo outro, e a ânsia de ambos, o pai tresloucado, a menina gritando “papai”, “papai” durou até que, de um lado, os guardas pegaram a criança e do outro, os companheiros o seguraram pelo consolo.

Ele é condenado a morrer na forca. A força do chefe militar foi implacável e determinante no Tribunal.

Mas o grito milagroso da criança na frieza daquele muro alto, de um lado, e o desespero do pai pela sua filha instigaram o coração de seus companheiros de cela, que resolvem articular o ingresso clandestino da criança no presídio e na cela. Ela contagiou aqueles homens, que se pensam petrificados na solidão da clausura. Ova conta que uma testemunha vira o acidente, e ela o encontrara naquela construção antiga no alto da montanha, que o pai chamava de “gigante de olho”.

Os companheiros de cela mobilizam o diretor do presídio, militares, para encontrarem aquela testemunha, que aliás era um desertor do exército.

Finalmente, encontram e prendem a testemunha, e o chefe militar, pai da vítima, quer ouvi-la naquele pátio imenso, mas a sós. Ele conta o que vira do acidente da filha. Enquanto falava, o militar o circunda, saca o revolver e atira, por trás, na cabeça da testemunha. Arrogante disse – “levem o corpo, ele tentou fugir”.

O condenado, cercado de militares e do diretor do presídio, é conduzido à forca. E o enforcamento se dá.

Nada conto mais, para não satisfazer totalmente à curiosidade de quem possa assistir ao filme, salvo dizendo que, mesmo no presídio, a força da ternura intoxicou o coração dos homens, civis e militares.

E o milagre da ternura se fez.

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O militar norte-americano

18 quinta-feira jun 2020

Posted by Feres Sabino in blog

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No Chile, os militares se recusaram a reprimir os gigantescos protestos populares. Nos Estados Unidos, o general Mark A. Miley, chefe do Estado Maior Conjunto, em discurso pronunciado na Universidade de Defesa Nacional, pediu desculpas “por ter participado de uma caminhada do Presidente Trump, na Praça Lafayete, para uma sessão de fotos, depois que forças de segurança usaram gás lacrimogênio e balas de borracha para expulsar ativistas pacíficos do local”. Ele disse: “Minha presença naquele momento naquele ambiente criou uma percepção de que os militares participam da política interna”. E ainda: “Como oficial comissionado foi um erro com o qual eu aprendi”. (Folha de São Paulo, 12/7/2020)

Enquanto isso, no Brasil, três mil militares ocupam cargos na administração federal, com uma lacuna, contudo, impossível de ser explicada. O Ministério da Saúde, em meio à gravíssima crise sanitária, não tem um ministro nomeado, ficando tal posto a cargo do general interino, que também não se arrisca a assinar a receita presidencial da cloroquina. Não assina talvez por saber que não é médico e a regra transnacional diz que não há conclusão científica a respeito dessa droga. Sabe-se, no entanto, que sua aplicação tem efeitos colaterais.

Mas, irresponsabilidade por irresponsabilidade, publica-se assim mesmo, com a exibição de uma nulidade reluzente. Sem responsabilidade ou sem motivação, o ato administrativo é nulo.

Ainda no Brasil de hoje a ignorância dos malefícios da ditadura militar faz com que vozes reclamem “intervenção militar”, e até invoquem o artigo 142 da Constituição, como respaldo jurídico para essa violência institucional. A dicção desse artigo é a seguinte:

“As Forças Armadas, constituídas por Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.

A confusão do discurso político, golpista, arranca dessa regra a razão para o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal.

Talvez se a ideologia da estupidez deixar um mínimo de raciocino lógico, chegará à conclusão de que as Forças Armadas, que são garantia dos poderes constituídos, não podem liquidar com qualquer um deles, porque garantidos por elas. Devem, sim, garantir a harmonia e a independência entre eles.

Se as Forças Armadas pudessem defender ou inibir, frustrar ou destruir qualquer um deles, haveria uma “inconstitucionalidade” na Constituição, que não acolhe o absurdo, dado que elas não podem fazer e não fazer tudo aquilo que algum aventureiro de plantão ouse tentar.

 Não precisa interpretar a Constituição, visto que os norte-americanos exercem tanta influencia dominadora no governo do Brasil, bastando a assertiva: “Minha presença naquele momento naquele ambiente criou uma percepção de que os militares participam da política interna”. E ainda: “ Como oficial comissionado foi um erro com o qual eu aprendi”.

Para nós, brasileiros, só falta uma declaração pública de uma posição democrática e, portanto, constitucional e sem ressalvas, para não ser mal interpretada.

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Não dá sorte, dá azar

07 domingo jun 2020

Posted by Feres Sabino in blog

≈ 3 Comentários

O presidente Bolsonaro compartilhou no domingo (31 de maio) um bordão popularizado pelo ditador fascista Benito Mussolini – “Melhor viver um dia como leão do que cem anos como cordeiro”. (Painel, Folha, 2/6)

Sua vocação recolheu essa frase, como o imã de seus adeptos.

Só pode dar azar.

Afinal, Mussolini foi alvo do heroísmo da Força Expedicionária Brasileira, que no seu retorno não mais suportava, tal como a nação brasileira, o regime autoritário instalado em 1937.

Buscar esse tipo de lição no inimigo é afrontar o brio das Forças Armadas do Brasil. Aliás, os generais que o circundam, e que ele sempre desprezou quanto à hierarquia, permanecem distraídos no festim do Poder.

Dá azar.

Antes da frase, o nosso presidente deveria saber o trágico final de seu autor: tentando fugir para a Suíça, ele foi apanhado pelos partisans e preso. Essa prisão aconteceu no dia 27 de abril de 1945. Sua amante, chamada Claretta Petacci, estava com ele. Julgados e condenados à morte, foram executados a tiros.

Os corpos foram levados para Milão, onde a população enfurecida chutou, baleou e cuspiu no corpo de Mussolini.

Deu azar.

Depois, ambos foram dependurados de cabeça para baixo, com a população em delírio, festejando. Repete-se a cena como aviso fúnebre.

Deu azar. Dá azar.

Tem outro que ele tanto admira: Hitler. Tanto que copiou a frase de seu reinado “A Alemanha acima de todos”. Hitler também deu azar.

Promoveu a morte de 2O milhões de russos, mais de seis milhões de judeus, milhares de soldados aliados. Sua morte foi como a de um rato queimado num buraco fortificado, chamado bunker.

Deu azar. Dá azar.

Ah! Tem outro. O do Chile. O sanguinário general, serviçal de interesses estrangeiros, o tal Augusto Pinochet, responsável pelas mortes, no Estádio Nacional de Santiago, inclusive com o corte das mãos do poeta cantador e milhares de mortos nas terras chilenas, e de opositores, mesmo a de militares em terras estrangeiras, com as explosões de Buenos Aires e Washington.

A história, no entanto, tem sempre um “mas”.  De repente, um magistrado honesto, o espanhol chamado Baltazar Garzon, defensor dos direitos humanos, expede ordem de prisão contra Pinochet. Ele é preso por crime contra a humanidade. A representação é sobre a Operação Condor, que os países do Cone Sul concordaram em matar opositores do regime, sequestrados ou mortos, no país onde estavam. Esse exemplo marcou a jurisprudência internacional, celebrando jurisdição transnacional como complementar da nacional. Ficou preso em Londres, durante 503 dias. Depois, no Chile, a Suprema Corte decretou-lhe prisão domiciliar, na capital que suas tropas, homicidas da democracia, haviam bombardeado. Foi preso como responsável pela morte de nove opositores.

Morreu, contudo deixou mais de 120 contas bancárias esparramadas pelo mundo, que receberam o fluxo do dinheiro chileno e, quiçá, de outras fontes, por sua traição à democracia.

Deu azar. Dá azar.

Mesmo assim, o presidente e o seu ministro da economia, que quer só vender o Brasil, quiseram primeiro visitar o Chile, e lá defenderam a tortura e Pinochet. Só que os chilenos sabem que a tortura humilha fisicamente o torturado e apodrece moralmente o torturador.

Deu azar. O Chile se rebelou em seguida, querendo uma Constituinte. Não suportou a visita da dupla. Deu azar.

Ainda, e por último, a consciência da civilização criou o Tribunal Penal Internacional, que caça genocida.  É bom morrer pouco com a pandemia, ou não morrer ninguém, como gostaríamos, porque pode dar azar. O cumprimento da pena pode ser numa cela solitária da Europa, longe dos milicianos do Rio de Janeiro, longe do condomínio onde residia o presidente e o chefe da milícia do sindicato do crime, sem que ele, presidente, soubesse, segundo disse.

Mas pode dar azar. Como tantas vezes a consciência humana, no trilhar da história, fez com que desse azar e sorte.

Cuidemos da sorte, portanto.

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