A Presidência que se foi

A juventude, e um tempo depois dela, confere, às vezes, não só disfarçada rebeldia com o que já foi ou é, como também se fixa em alguma ideia de rigor exagerado, que – Deus me livre! – faz com que cometamos injustiças, desvendadas só com o passar do tempo.

Assim foi comigo, quando sonegava reconhecer mérito a quem pudesse aqui ou ali se despontar como cumpridor de deveres, especialmente quando tratava de interesses coletivos.

Eu me dizia: Cumpriu o dever e pronto. Simplesmente assim.

Depois, aprendi que as pessoas, como todas as crianças, quaisquer que sejam, gostam não só de serem vistas, reconhecidas e especialmente aplaudidas naquilo que fazem como uma realização pessoal, mesmo que fique em seu espaço íntimo ou privado, ou mesmo quando a vida a conduziu para um lugar de destaque, para cuidar de uma comunidade pequena ou grandiosa.

Assim, nessa altura da vida, provo ter apreendido já há muito tempo a reconhecer o esforço vaidoso de quem organiza ou desenvolve uma entidade, uma associação, qualquer que seja sua finalidade.

O ato é que, por exemplo, numa Presidência de uma entidade, de uma associação ou academia, está lá a pessoa coordenando, junto com seus companheiros de direção, organizando palestras, deslocando-se para falar aqui ou acolá sobre a finalidade de seu trabalho, comemorando, celebrando, lutando para aprofundar no seio da comunidade a consciência da presença social da entidade.

Mais ainda. A organização da entidade agrega pessoas que não oferecem só ideias criativas ou críticas, mas se dispõem ao trabalho coletivo, com a virtude de todos realizarem tudo sem nenhuma compensação em dinheiro ou vantagem material; todos ali como que escrevendo, gravando na brisa da ternura seus nomes, que ficam nos livros do tempo, para anunciar permanentemente a sua passagem pela terra.

Ficam as poesias de seus autores, martelando à porta da sensibilidade de todos e muitos, as narrativas de seus historiadores ou de seus literatos, como um verdadeiro hino à vida, bendizendo o estar ali como testemunhas de um mundo em permanente mutação.

A responsabilidade de uma Direção é o auge para quem a cumpre com devoção. Se com o passar do dia esfria o fervor de quem lá esteve, a memória é capaz dessa justiça: reconhecer aquele momento de fervor e devoção deixados por quem lá esteve.

A Fernanda Ripamonte, professora, escritora, poeta, passou pela Presidência da Academia Ribeirãopretana de Letras, acrescendo ao patrimônio histórico dela o que tantos a construíram, com um legado da presença feminina, criativa, realizadora, que inspirou a escrita desse texto que o faço em meu nome, do Sérgio Roxo da Fonseca e do Marcos Zeri Ferreira.

Agora é a vez de Elias Antônio Neto.

Fernanda, você soube fazer e fez bonito.

Obrigado e Parabéns.

E os outros Natais?

Este Natal acontece no mundo, como se não tivesse havido outros Natais, depois de mais de 2000 anos do nascimento de Cristo, sua vida, seu calvário, sua morte.

A estupidez ocupa a mentalidade de tantos, como uma encarnação da sombra tenebrosa, facilmente trazendo para o seu redil outros tantos desavisados, que se incorporam facilmente na turba alienada.

Se a mensagem do Natal, na simplicidade de sua ternura, é essencialmente universal, com sua prudência, tolerância, respeito, dignidade, amor, o mundo através de políticos e não políticos, pastores e não pastores que ocupam microfones e púlpitos para propagar o ódio e a destruição.

Impressionante, nesse ideário do ódio que a pessoa se liga com paixão doentia a uma ideia salvacionista, que se torna incapaz de ouvir um argumento da razão, que não rompe relações, nem se engrandece com rupturas definitivas.

A marcha da estupidez conta com o concurso de religiosos que, esquecidos da mensagem fundamental do cristianismo ou do humanismo sem fonte declarada, se tornam soldados do ódio enrolando nesse torvelinho primeiramente pessoas, depois instituições, e das ofensas das quais não escapam países e outros povos. É um enlaçamento do que há de pior na natureza humana, que ultrapassa fronteiras.

A guerra, que seria localizada, vagarosamente vai se expandido, em nome do espaço vital e da segurança, e o genocídio de homens, mulheres e crianças passam a ser as vítimas modernas do avanço tecnólogo e científico.

Somas vítimas da desinformação, como se isso fosse a predestinação de povos inferiores, incapazes de olhar o panorama do país sem registrar que o governo não é de um só partido, mas de uma frente ampla, que traz a contradição de estar no governo, para garantir estabilidade e nas votações do Congresso votar contra o governo. Essa contradição serve de avaliação da ausência de ética e de moralidade pública, porque tais partidos, majoritários na vergonha, atacam o orçamento da República, com voracidade maior do que as máfias organizadas e poderosas. O Parlamento se tornou o palco do assalto legalizado de bilhões de Reais, que são desviados de áreas prioritárias. E o requinte desse assalto é que é da lei a obrigatoriedade da transferência dessas verbas. E os deputados se ofendem com a aplicação do princípio constitucional da transparência. Assim, para os deputados, o assalto para ser assalto inteligente tem que ser no sigilo, mesmo no caso de dinheiro público.

Esse exemplo brasileiro, assim próximo, é o melhor exemplo da inversão de valores que a doutrinação do ódio conseguiu, porque é da sua essência o distanciamento da ética e da moralidade públicas o rompimento com valores de solidariedade.

O salve-se-quem puder, alentado por essa pregação odienta e divisionista, individualista, não corresponde ao convívio pacífico e solidário que sempre se pretendeu e lutou sob as luzes natalinas.

Agora, nesse Natal, é o sentimento de que mais do que nunca devemos encarnar sua mensagem, com esforço heroico, para que nossa cautela, temperança, respeito à dignidade não abra mais espaço à truculência e ao ódio.

Natal, teimosia histérica do Amor.

Feliz Natal.

A conversa pra boi dormir

O governador de São Paulo fixou seu espírito verdadeiro, sua fé política, sua dependência da fonte autoritária, não foi só porque vendeu a Sabesp, lucrativa em bilhões, sem fazer a pergunta óbvia sobre a vantagem do lucro da estatal ou parestatal, que deveria estar nos cofres oficiais, ou no cofre faminto do empresário privado. Agora o CEO da Sabesp declara para quem quiser ouvir: “A SABESP NÃO FARÁ POLÍTICA PÚBLICA”. Agora, se o Estado que faz política pública das águas, quem o fará… pois a empresa privada quer lucro. Eis a equação da redução das despesas, da redução de pessoal qualificado, preparado durante anos, da redução da qualidade do serviço e os consequentes desastres que já se vislumbrou com a privatização da Vale do Rio Doce, com Minas Gerais devastado com mortos, feridos e destruição da natureza.

Não foi só por isso que o espírito governante se marcou indelével perante a cidadania. A rigor, essa vertente vendedora do patrimônio público está ligada a outra vertente de desrespeito violento, revelada pela explosão verbal que saiu como resposta ao protesto da inaugural violência policial, após atuação no litoral paulista, e depois repetida, somando mortes de dezenas de pessoas.

Aos apelos de racionalidade legal, de respeito aos direitos humanos, o governador bufou: “Pode ir à ONU, aos direitos humanos, aos raios que os parta, que eu não estou nem aí”. Coragem indômita! Já que, ainda, mantém na Secretaria da Segurança o policial militar, devoto da morte, que só reconhece bom policial aquele que já matou três, e que de repente afastou ou aposentou 32 coronéis legalistas.

Mas depois disso, a violência policial continuou matando jovem com 12 tiros nas costas, matou criança, em cujo enterro os policiais foram para pressionar a família, matou velhinha, e por fim alcançou o ápice da estupidez filmada, porque um policial militar jogou da ponte um jovem.

Para indignação geral, a resposta do governador foi uma atitude de estudada e fingida humildade, aparecendo como alguém que errou, pois antes rejeitara as câmeras corporais nos policiais, com filmagem ininterrupta, e funcionamento não dependendo do policial que a mantinha ao corpo. Diz ele: “Eu errei, sim”. Humildade aparente.

E abriu concorrência para câmeras que filmam quando do interesse do policial que a carregue, só que agora decisão do Supremo Tribunal Federal coloca a calibragem da lei, na obrigação do governador.

Os antecedentes da atitude do governador nasceram da atuação da Defensoria Pública de São Paulo, que ingressou com ação judicial, sustentada no direito constitucional à vida (art. 5º da CF), que “abrange a dignidade, a integridade e a existência como pré-requisito e exercício de todos os demais direitos”. Esta ação da Defensoria tem a finalidade de obrigar o governador a continuar a política de câmeras de funcionamento ininterrupto. O Tribunal de São Paulo julgou improcedente a ação, porém, a Defensoria Pública, que faz excelente trabalho, recorreu ao Supremo Tribunal Federal, que concedeu prazo ao governo paulista, até recebendo visita do senhor governador, que nunca respondeu eficazmente ao questionamento que lhe faziam, formalmente. E, assim, na certeza de que seria condenado, ele resolveu pegar, um pouco antes, a capa da humildade e confessar que teria errado. Ele errou verdadeiramente, já que pesquisas sempre revelavam em números surpreendentes que as câmeras protegem o policial e o cidadão. A conclusão de antes é que morrem menos policiais com a existência delas.

Não basta dizer, portanto, que errou, nem repetir uma série de providências que ouviu do encontro de Brasília, é preciso fazer a segurança pública funcionar devidamente interligada com os governos estaduais e a centralização da União Federal, nos moldes em que o Ministério da Justiça está se debatendo e propagando.

Está no Google “Conversa para boi dormir é uma expressão popular em português (do Brasil) utilizada quando se diz que alguém está de conversa mole, lero-lero, desculpa esfarrapada ou mentira contada com a intenção de enganar alguém.