A torre como sonho

Minha geração colegial e universitária se formou sob a égide da liberdade política do país, que vigorou de 1946 até o fatídico, inesquecível e brutal golpe de estado de 1964, cujos efeitos maléficos nos atingem até hoje.

Debatiam-se, na aula mensal de geografia, os problemas do Brasil, criando um esboço de consciência de nação, e uma perspectiva de Brasil organizado e forte, soberano e dono de seu destino.

Era o período em que a temática era a do nacionalismo-desenvolvimentista, que garantia um índice alto de desenvolvimento do país, que veio num crescendo, depois da revolução de 1930 e que cobriu os anos até 1980. Era o país que mais crescia no mundo, e que de repente começou a andar para trás, até essa subserviência arrogante e eticamente miserável, que numa primeira e única reunião presidencial com seus ministros, para deixar claro que a preocupação era os filhos e os amigos, num salão nobre convertido em lavanderia sem desinfecção.

Naquele período o empresariado nacional estava mais ligado aos interesses do país, e avançou para compreender que aumento salarial não era fator de inflação.

Hoje, depois do último golpe, depondo uma Presidente, alegando inclusive o número exagerado de isenções de impostos de empresas, o governo sucessor não selecionou tais isenções, deixando como estavam e quiçá aumentando-as, emagrecendo os cofres da União, mas reservando bilhões ao sigilo do orçamento secreto, para compra direta de deputados e indireta de eleitores.

Ah, o Brasil da consciência de nação, e de suas forças armadas consideradas o “povo fardado”, era o Brasil dos melhores tempos de nossa juventude.

Naquela época o respeito às instituições e aos Poderes não inibia nosso espírito crítico, sempre sugerindo adequações e atualidade, afinal, a democracia como conquista histórica está sempre por ganhar um perfil novo. Hoje, os golpistas querem fazer crer que a ditadura é uma espécie de dádiva do diabo, sem as quenturas do inferno, e transformando a miséria ética e moral daquele perigo negro da história recente do Brasil em benefício necessário para umedecer a raiz democrática. Mas, por cautela, estão destruindo os documentos relativos a esse período, no Arquivo Nacional.

Nossa ingenuidade não se cansou de proclamar “Anistia – o desarme do ódio”, para assistir no atual período presidencial à destilação justamente do ódio, que guardaram para um revanchismo da maldade. Não é despropósito afirmar que o ressurgimento do ódio reprimido é fruto da benevolência da lei da anistia. Aliás, é por essa que torturadores saíram ilesos para chefiarem a traficância de drogas, no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, galgando chefias através da maneira como sabem e ficaram ilesos, matando.

Não se atacava as instituições porque se respeitavam as leis. Mas, hoje, a arrogância de todo esqueleto sem alma ataca a Constituição, já que histórica e juridicamente ela representa um limite à atuação do poder político.

E o que inferniza o rebotalho de hoje é o limite, que cabe ao Supremo Tribunal de Justiça declarar. Não é Alexandre, Fux, Rosa Weber, ou qualquer outro nome, apesar de eventuais equívocos, mas é o limite. Limite não pode ser declarado, o fascista espuma, sonega a metade da verdade, confunde a outra, e vai enganando de forma audaciosa, sabendo impune, até porque o “Meu Exército” está sob o seu domínio encantado, ou conveniente.

Essa falta de limite avança por todas as vertentes. Foram liberados mais de 500 agrotóxicos, para envenenar aos poucos o povo brasileiro. Retiram as providências legais que poderiam determinar limites a essa liberação. Todos que representam colegiados criados por decreto foram extintos, porque influenciavam no conteúdo daquela área, mas dentro de limites legais. Avanço sobre terras indígenas, violando a Constituição, até visitando acampamento de invasores.

E, agora, prometendo vender a Petrobras, símbolo de nossa época de estudante, que representava o sonho de redenção do Brasil, naquele esforço construído por civis e militares.

No Largo da Faculdade de Direito de São Francisco tinha lá uma torre de petróleo, sinalizando luta e promessa sem limites pelo Brasil.

Se a torre antes foi retirada, agora ela ganha, no imaginário de uma geração, um símbolo de destruição do sonho de uma consciência de nação redimida, que se desfaz no ar do fascismo disfarçado, que só fala em vender, menos a mãe, o pai e o espírito santo, ainda que estejam sempre ameaçados por oferta generosa.

A riqueza do pastoreio

Esse governo que cantou a bandeira da anticorrupção, como se fosse a primeira vez que a tal sereia encantada enganasse o povo brasileiro, apresenta um figurino ocupante de muitos cargos, que traz postura, quando não do uniforme militar, uma e outro próximo da benção do pastor, cuja especialidade não é a propagação da fé, mas a arrecadação do dinheiro.

Se antes a arrecadação era o treino da colheita argentária, nos templos e através dos programas de rádio e televisão, agora, o volume individual torna-se gigantesco com a consciência de exigir dinheiro considerando a produção de riqueza do local.

Por exemplo, na região daquele prefeito subordinado à intemperança religiosa do pastor abre-portas do Ministério da Educação, eis que esse especialista da colheita de dinheiro público exige um quilo de ouro.

O Ministério da Educação segue o reconhecimento das necessidades locais somente para deixar que a fome e a ganância de dois pastores se refestelem na torrente fétida da danada da corrupção.

A diferença entre essa corrupção e qualquer outra acontecida no Brasil é que essa depois de ter o bolso cheio, ou um pouco antes disso, o pastor pastoreia a possibilidade, ou o ato consumado, faz uma oração, pede que todos ponham a mão na santa Bíblia, ficando tudo esclarecido à luz da bondade infinita do grande pai.

Se eticamente é grave apossar-se indevidamente do dinheiro público, o pastor ensina que, depois da consumação, o mais importante é o arrependimento, qualquer que seja o destino do dinheiro. E já preparam o próximo golpe…

O Brasil atual, que parecer ter ficado imobilizado diante das artimanhas dos espertos em cargos públicos atuais, parece não ter se indignado com a destinação de trinta bilhões de reais ao orçamento secreto, para a compra indireta dos votos dos deputados, que destinam sua parte às suas ou às novas regiões de seus eleitores, desmontando qualquer possibilidade de atender-se de forma planejada os interesses reais da população brasileira.

Já houve o escândalo da vacina, não pelo reiterado desmentido presidencial de sua ineficiência, o que tangencia a criminalidade, mas pela descoberta daquele timinho civil e militar, que contou, sim, com aquele militar dos confins de Minas Gerais, que, na hora do expediente, estava em Brasília, arquitetando o grande golpe que a Comissão Parlamentar de Inquérito desventrou com o bisturi que lancetou a infecção do vírus malandro. Mas, não é só isso, lá estava o Pastor para abençoar o processo do assalto e o produto dele, com a exigência enérgica do arrependimento, para que o senhor do universo tudo perdoasse, deixando os meliantes com a consciência tranquila, para preparar novo golpe.

E o presidente aparece distante desse malfeito desventrado, fingindo que não é com ele, mas não pune ninguém. A roda gira e todos ficam nela.

E o andor da democracia passa pela turbulência ocasional, mas repetida, para fazer com que acreditem que a morte dela possa favorecer o sonho de fazê-la única e próspera e livre para seu povo. O nazifascismo foi enterrado por nós, será que suportaremos a sua ressurreição?

Depois que o discurso da perversão foi de que a “ditadura é uma etapa da democracia”, sem que tenha havido uma insurgência verbal vigorosa, diante de tal disparate, o marchar do autoritarismo segue no zigue-zague da história, como se ela depois dele não mais caminhasse, ficasse na etapa do fim. Seria o seu fim.

Mas o fantasma projetado pelo Tribunal Internacional alerta todo rebotalho governamental de que as garras da lei podem conduzi-lo à solitária europeia para celebrar as mortes, as torturas e os sofrimentos que promoveu, como imperador de um só momento do tempo.

Não adianta a troca de delegados e a seguidas trocas dos promotores, que perseguem a descoberta do mandante, pois o cadáver de Marielle está insepulto, no imaginário do mundo.

Da guerra

A guerra constitui o auge da estupidez humana. Aliás, logo após o término da 2ª Guerra Mundial, o espírito dominante, ainda tomado pela brutalidade nazifascista e com a devastação das bombas de Hiroshima e Nagasaki alimentou-se da ingênua certeza de que aquela guerra fora a última delas. Não haveria mais guerras. E a divulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos (10/12/1948), votada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, festejava essa nova era.

Antes, em 1934, em Evian, na Franca, os Estados Unidos e mais de trinta países ocidentais se negaram a receber a imigração dos judeus já perseguidos da Alemanha, o que teria evitado a morte de milhões sob o horror e a morte em massa dos campos de concentração. Essa negativa serviu de chacota nos jornais da Alemanha nazista. O fato, porém, é que com esse peso coletivo de consciência esses países aderiram fortemente à ideia da criação do Estado de Israel e do Estado Palestino, o que aconteceu na Assembleia Geral da ONU de 1946, sob a presidência do ilustre brasileiro, Oswaldo Aranha (Osvaldo Euclides de Sousa Aranha – Alegrete/1894, Rio de Janeiro/1960), que anualmente é homenageado em Israel; e em 1948 foi indicado ao Nobel da Paz.

Essa criação de dois Estados, ideia que a comunidade internacional tem reiterado, já trazia em sua origem a fonte de um mar de sangue, que jorrou com o trabalho guerrilheiro da expulsão de proprietários rurais palestinos, sendo verdade que muito antes, no tempo, o método da compra de terras palestinas constituiu um modo de ocupação.

Se as nações árabes eram contra a divisão daquele território, a consequência dessa postura é que não houve a instalação do Estado palestino, enquanto floresceu o Estado de Israel. Essa discrepância colocou o povo palestino sob brutais repressões, sendo que em Gaza é como um gueto a céu aberto.

Enquanto isso, após a guerra, o mundo estava dividido em dois blocos: o liderado pela União Soviética e o outro pelos Estados Unidos, ambos se armando com tantas bombas que destruiriam o mundo várias vezes, apesar de que para isso basta uma só destruição.

E tantas guerras aconteceram e acontecem depois disso que agora até os filhotes desavergonhados de Hitler e Mussolini surgiram ocupando cargos públicos, circulando com motocicletas, redivivos, ajuntando-se em partidos políticos e particularmente em milícias armadas ou digitais, gargalhando das instituições democráticas e lutando pela sua destruição.

Entretanto, na marcha da história, o bloco da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), acumulando contradições, se desfez (1991). Antes disso, porém, aquele agrupamento de países tinha instituído o chamado Pacto de Varsóvia (1955), como organismo militar para sua defesa; em contrapartida ao organismo do ocidente, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que já fora criado em 1946, fruto da chamada Guerra Fria, e suas pronunciadas tensões ideológicas. A propósito, está lá um militar brasileiro representando o espírito vira-lata do país, que geograficamente se situa no Atlântico Sul.

Desfeita a URSS e com ela o Pacto de Varsóvia, seria natural que a OTAN perdesse o sentido e fosse extinta, como força de defesa. Mas ela passou a existir como força de ataque, fazendo guerras, instalando bases com foguetes de ogivas nucleares em alguns países, que integravam a antiga URSS, e voltados para o território russo.

Assim, a OTAN passou a ser ponta de lança da descomunal força militar então hegemônica, cultural e econômica, dos Estados Unidos. Tão grande e tão forte que se divulgou, prematuramente: o fim da história.

No entanto, a Rússia se recompõe como potência militar, e finalmente acerta uma parceira “sem limites” com a China, em documento lançado na abertura dos últimos “jogos de Pequim”.

Nesse ínterim, o Presidente da Ucrânia discursa dizendo que o país entraria mesmo na OTAN e que seria ela nuclearizada, o que equivale dizer que mísseis com ogivas nucleares estariam próximos e voltados para a Rússia. O bom senso perdeu o senso, e as potências ocidentais não souberam tratar, antes, a ameaça real para evitar o pior.

Sim, há muita dificuldade de paz negociada, pois a Ucrânia é peça importante no jogo geopolítico das grandes potências. E a União Europeia dominada pela OTAN, não tem um espírito igual ao de um De Gaule para cuidar de si mesma, sem estar curvada aos interesses dos outros, como se fossem seus.

Por isso o território da Ucrânia é um campo de batalha, oferecendo ao mundo solidário o retrato de milhões de homens, mulheres e crianças procurando um novo lar, em terra estranha, para morar e viver em paz.

Só que o mundo agora é multipolar. Não é uma só potência que dirá para onde o vento deve soprar.

E a história não tem fim, só se o mundo, e nele nós, for totalmente destruído, mesmo sendo uma única vez.