Bolívia

A Bolívia foi o país que mais cresceu durante o longo período presidido por Evo Morales, o indígena.

Evidentemente que a oligarquia de qualquer nação não tolera a ascensão das classes desprotegidas e pobres da sociedade. Elas se sentem ameaçadas, acreditam não na justiça, mas na possibilidade de perder sua posição social e eventuais privilégios. Esse preconceito antinacional aceita o conúbio com interesse estrangeiro, que no caso da Bolívia se trata de um metal leve, o lítio, empregado na fabricação de carros elétricos, com os quais o país queria alavancar seu desenvolvimento. Tanto que o fabricante norte-americano, que não admite tal concorrência, já declarou ter financiado o golpe. E tem mais: a oligarquia de Santa Cruz de la Sierra, cerne desse problema, aliás, ainda que pequena, não aceita, em nome de seus parceiros estrangeiros, que o lítio seja vendido para a China.

Atualmente, o discurso político que enaltece a democracia pela democracia é produto de um disfarce que pretende intoxicar a mente escravizada pela mentira, segundo a qual se cada um quiser crescer, desenvolver-se como indivíduo e com sua vontade inquebrantável, ele o conseguirá. O resultado é que esse diapasão neoliberal, vinculado convenientemente à fé religiosa, faz muito indivíduo acreditar ser ele mesmo o próprio deus, dispensando o que a religião ensina como preceito básico, que é a comunhão e a cooperação, imperativos humanos da solidariedade.

Se para o neoliberalismo é só o indivíduo, nada vale o ensinamento do filósofo espanhol que conceitua o homem, acrescentando-lhe a força das circunstâncias que o envolvem.

A cultura indígena naturalmente vive a solidariedade ligada à natureza, mãe e patrimônio comum de todos os homens, mulheres e crianças. Não é possível desprezar essa realidade latino-americana, assim como não se pode desprezar Confúcio e Lao-Tsé na cultura milenar chinesa ou a confluência do índio e do negro na cultura brasileira.

Ora, se o denominador comum de uma sociedade majoritária por milênios não fugiu à cooperação e à solidariedade permanente, só uma política de ruptura desse laço é que arrasta o país ao subdesenvolvimento permanente, como a Bolívia, que viveu tantos golpes de estado, até que encontrasse alguém que correspondesse às expectativas da cultura milenar.

Disseram antes, como preparação ao golpe, e no tradicional uso do moralismo tosco, que houvera fraude para a reeleição de Evo Morales. Recentemente uma nova análise independente, publicada pelo Washington Post, afirmou categoricamente: não houve fraude. Mas o serviço da estupidez golpista já estava feito. Evo saiu de seu país para não ser morto.

O país foi presidido por uma senadora, que se apresentou como “presidente”. A liderança dos poderes renunciou, ou foi renunciada.

Agora, o voto soberano das urnas deu a vitória a Luís Arce no primeiro turno, eleito pelo mesmo partido de Evo. Pepe Escolar, o extraordinário jornalista, que residiu em tantas capitais do mundo, comenta que a senadora golpista, ex-presidente, já pedira ao Departamento do Estado trezentos e cinquenta vistos de entrada nos Estados Unidos.

Mas a vitória nas urnas não sufoca nem a direita nem a esquerda.E quando a violência é a opção antidemocrática, acontece assim: uma primeira bomba  colocou em risco a vida de Luís Arce, o presidente eleito, quando reunido na sede do seu partido, antes mesmo da realização de sua posse. Naquela ocasião sua própria guarda de segurança retirou-se, previamente, para que o artefato do mal explodisse livremente.

Uma lição pode ser copiada pelo Brasil. Apesar da trepidação dos contrariados interesses políticos, econômicos e militares, o que realmente liga, ou deveria ligar as nações e os países, são os interesses de cada um. 

Não cabe a um presidente ou a uma oligarquia ser mais leal a um presidente de um outro país, ao invés de ser leal e fiel a seu próprio país. A vassalagem de um governo de país emergente, cujo chefe se dedica a lamber o chefe e a bandeira estrangeira, é tão desprezível como um lesa–pátria, e causa danos irreversíveis.

A resistência do carnegão

O presidente brasileiro fez muito bem em prestigiar o seu ministro da economia, que esteve radicado no Chile durante a ditadura de Pinochet. Eles, juntinhos, foram lá para defender a tortura e a ditadura. A consequência é que os chilenos, que viveram na carne tal desgraça, receberam a dádiva da truculência brasileira como gasolina no fogo. A consciência nacional fervilhou e a multidão na rua apressou seu grito por Constituinte, para romper de vez com a estrutura jurídico-social da ditadura. Aquela visita de língua de fogo alargou a democracia. Lá, o modelo neoliberal falido serve de advertência ao Brasil, que está sendo desossado como republiqueta vassala.

O presidente brasileiro acertou quando criticou a força eleitoral argentina, que sairia vitoriosa. O efeito contrário da sua palavra serve de húmus à criação democrática. A dignidade da consciência argentina recebeu esse veneno como alimento para dar vitória às forças democráticas. Na verdade, quando o nosso miliciano-presidente faz tais declarações, elas representam um tiro daquela espingarda enferrujada, que serviu de símbolo à vitória dele do Brasil, quando não apresentou programa e nem precisou falar para subir as rampas do Palácio do Planalto. Mas em relação à Argentina, o miliciano-mor caiu do cavalo, apesar de ser da cavalaria do exército.

Ele acertou, outra vez, ajudando as forças da oposição nos Estados Unidos, colocando-se sempre como vassalo do carnegão norte-americano, que nunca permitiu a familiaridade que ele gostaria de tê-la. Ele o apoia à distância, mesmo que não o quisesse, justamente pela sua insignificância política, como vassalo.  Seu gesto de subserviência animou o filho a ir lá, vestir o boné, a camisa da campanha do carnegão norte-americano. O filho é aquele que desejava ser embaixador, só porque aprendera a fazer cachorro-quente de quermesse para o distinto público do OK. E nosso miliciano-presidente apoiou sempre o carnegão, fazendo até continência à bandeira estrangeira.

Mas deu certo de novo, porque deu errado para nosso miliciano-presidente.

O carnegão ou carnecão, que é aquela meleca clara que demora sair com o pus do furúnculo, não quer sair de seu lugar de poder lá nos Estados Unidos. Ele que desacreditara a ciência; que não preparou nem preveniu o país para a eventualidade de uma pandemia, apesar da equipe de transição do Obama ter-lhe entregue estudo sobre uma possível epidemia no país, baseada em anteriores surtos endêmicos. Ele que lançou mentiras aos milhares durante o seu mandato e agora as multiplicou por mil; que rompeu com a política multilateral; que não acredita na contaminação do ar; ele que trata a natureza humana tal como a natureza das coisas, com a mesma arrogância de quem tem compromisso só consigo mesmo; que por um triz não causou uma Terceira Guerra Mundial com o assassinato do general iraquiano; que viajara em avião de carreira; ele que saiu do Acordo de Paris sobre o clima, o qual pretende salvar o planeta salvando a natureza; que atacou os veteranos das guerras perdidas pelo país, dizendo-os perdedores simplesmente; que ataca a imprensa no texto e no contexto de suas mentiras. Ele que viola os princípios básicos da democracia, que no plano político consagra a tolerância e o diálogo; que arruma desavença gratuitamente; que diz e desdiz sem nenhuma cerimônia; ele que não aceita a derrota nas urnas, que quer roer as instituições democráticas, quer ficar mais, apesar das urnas majoritárias devolverem-lhe o epíteto de seu programa de televisão – ESTÁ DEMITIDO.  Ele não quer sair da Casa Branca.

Ora, se nosso miliciano-presidente repete o carnegão norte-americano em tudo, não é demais esperar dele coisa igual ou pior.

Nada de “direito cuecório”

Se alguns políticos mantiverem a frequência de esconderem ou tentarem esconder dinheiro na cueca, o anedotário poderá desenvolver o chamado “direito cuecório”, aquele que garante punição imediata, pública e notória da instituição ou do Poder ao qual o “danado” esteja vinculado, como é o último caso do senador Chico Rodrigues, senador do augusto Senado da República Federativa do Brasil.

Uma forma de autodefesa pessoal, como que se precavendo de eventual e futura punição igual ou semelhante, não pode ficar escondida na desculpa de que o Supremo Tribunal Federal está invadindo a competência de um Poder, e daí não se dá ao ato grave, ridículo e patético a imediata providência que merece, com a prioridade de se garantir sempre a dignidade da instituição ou Poder. E o lengalenga atrasa o saneamento básico necessário e rápido para que não se perca, diminua ou se submeta à maior corrosão a legitimidade do Poder, ou seja, a confiança da cidadania.

Nessas horas cruciais é que tem surgido do fundo da cultura discricionária, acumulada pelo escravismo de mais de três séculos, o tal jeitinho brasileiro para salvar sempre o envolvido em desgraça suprema, daquele que julga estar, como está, no patamar superior da sociedade.

Esse jeitinho da cultura do deixa-disso está presente nas instituições, como o espírito do mal no corpo etéreo do diabo.

Recentemente, o antigo coordenador da Lava Jato foi beneficiado por aquele instituto jurídico que tanto ele criticou, prevenindo sua aplicação em benefício das pessoas que perseguiu com toda força de seu abuso impune. O benefício aconteceu pela aplicação da tal prescrição, que prevê tempo determinado de punição do acusado ou investigado. Dir-se-á: se transcorreu o prazo previsto para punir, tudo bem. Acontece, porém, que o órgão disciplinador que, no caso, é o Conselho Nacional do Ministério Púbico, não conferiu ao processo dele e contra ele a preferência que o coordenador da Lava Jato dera para fazer correr na justiça o processo de seus perseguidos, e daí nasce o charme da extinção da pena, que esquece a punição, mas não esquece o fato. O que talvez possa levá-lo ao tribunal pela responsabilidade civil, fora do âmbito do órgão disciplinador, portanto, para cuja autoridade é inconcebível ou concebível supor, ou não supor, o império da solidariedade corporativa, irmã siamês do jeitinho cheio de jeito da desgraça histórica e nacional.

Se o Supremo não deve invadir a competência de outro Poder, em razão da dignidade da representação popular, o que na prática revela que um só julgador pode punir o representante de milhões de pessoas, de outra parte, o Senado Federal, mediante comunicação de qualquer crime, e no caso de natureza ridícula e vexatória, não pode deixar de proceder imediatamente ao processo cabível para afastar rapidamente essa podridão moral de seu seio.

Uma sociedade, em algum momento histórico, que deve se recompor de crise institucional, política, social e econômica, como este da vida brasileira, deve tirar de suas entranhas a força de uma ética salvadora, que faça com que cada um aja para não danificar o direito do outro, e que os servidores do Estado, além de assumirem-na, devem se consagrar ao incentivo da tolerância e concórdia social no seio de um espaço democrático, no qual a pessoa seja, como é na nossa Constituição, o centro radical de nosso convívio projetado.