Entrevista à rádio CBN Ribeirão Preto
18 sexta-feira jul 2014
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18 sexta-feira jul 2014
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14 segunda-feira jul 2014
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Os homens dignos, quando falecem, deixam uma espécie de estrela candente na visão e na memória dos que ficam. Com o passado e a legenda que souberam construir, ela representa a prova definitiva de que valeu a pena viver, como valeu a pena morrer. O corpo inerte gera, então, o milagre da intensidade vívida, já que o espírito daquele corpo cede à vida a inspiração do exemplo. A morte, por isso, é uma mentira.
Plínio de Arruda Sampaio, revestido da dignidade pessoal, é dessa estirpe que os tremores do tempo não conseguiram apequená-la.
Estudou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, tempo em que se tornou membro da Juventude Universitária Católica (JUC). Formado, tornou-se promotor público. Como cristão e católico, vinculou-se à religiosidade da vida militante, vivendo e lutando para que o sentimento da caridade invadisse o espírito e o conteúdo de políticas públicas, até alcançar a rampa da realização da justiça.
O padre francês Louis-Joseph Lebret, fonte ideológica assumida pelo Partido Democrata Cristão (PDC), serviu-lhe de inspiração, e, na sua palavra, Lebret “é um padre dominicano, uma figura muito especial, é inclusive o homem que redigiu a Encíclica Popular no Congresso. Ligadíssimo ao João XXIII, ele foi capitão da Marinha francesa. E depois da guerra ele se converteu ao catolicismo. Acabou frade dominicano. E ele tinha uma teoria chamada de economia humana, economia das necessidades. Que não era socialista, nem capitalista. Nós éramos católicos. Mas nós não éramos convencionais. Nós éramos da estação popular, gostávamos do povo e ele nos ofereceu um norte naquele tempo”.
Adepto da teologia da libertação, sempre foi a figura de pregação rígida, mesmo com aquela personalidade suave e palavra veraz, que dizia com o coração e a alma o que sonhava para o país.
Entre 1962 e 1964, quando deputado federal pelo PDC, foi o relator do projeto da reforma agrária, quando criou a Comissão da Reforma Agrária. Essa matéria já o empolgara como coordenador do plano de ação do governo de Carvalho Pinto, em 1958, nomeado, que fora, para a subchefia de Casa Civil, da qual se desligou em 1961 para exercer o seu mandato.
Defensor da reforma agrária na democracia, teria, só por isso, o desagrado impenitente do conservadorismo armado, que, golpeando as instituições, o inclui no primeiro rol das cassações realizadas pelo Ato Institucional n. 1, de 9 de abril de 1964.
Antes, durante e depois de 1964, mesmo quando cassado, Plínio foi o mesmo cavaleiro andante, aprofundando princípios e os inter-relacionando com os problemas sociais que marcam o Brasil de nosso tempo.
Exilado, foi para o Chile, onde trabalhou, por seis anos, para a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Em 1970, vai para os Estados Unidos e defende sua tese de mestrado em Economia Agrícola na Universidade de Cornell. Retorna ao Brasil em 1976. Ingressa no Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Quando o bipartidarismo morre, funda o Partido dos Trabalhadores (PT) – do qual se desliga, após vinte anos, para ingressar no Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), pelo qual foi candidato à presidência da República e ao governo de São Paulo. Justifica essa sua ruptura com a inteligência desta frase: “Eu não saí do PT, foi o PT que saiu de dentro de mim”.
Eleito deputado constituinte, foi relator da subcomissão do poder judiciário, membro da Comissão de Sistematização e da Organização do Estado, e presidiu a Comissão de acompanhamento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). É dele a didática explicação sobre o retrocesso entre o que foi decidido na Comissão de Sistematização e a votação em Plenário, mediante alteração do regimento interno da Constituinte por força de deputados que se uniram num grupo denominado Centrão para seguir as votações, não permitindo os avanços que tanto medo causavam na elite nacional. Por isso, defendeu, com 71 associações, a realização de plebiscito sobre o texto da Constituição.
No primeiro governo Lula, coordenou a elaboração do II Plano Nacional de Reforma Agrária, que poderia ter transformado o rosto do país. Em 2009, sua experiência e saber colocaram-no, outra fez, junto aos representantes do episcopado nacional, apresentando-lhes a sua narrativa da realidade brasileira materializada no documento “Igreja e a Questão Agrária no início do século XXI”, aprovado pela Assembleia Nacional da CNBB.
Sua ética pessoal e sua pregação de democrata radical às vezes se tornaram um verdadeiro incômodo para os que viviam nas esferas só dos conchavos da política miúda, da abastança pessoal. Vivia o interesse público, que na sua narrativa político-cristã quase sempre ganhava o conceito de bem comum. A última vez em que pude celebrá-lo pessoalmente e aplaudi-lo foi na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), quando a Seção de São Paulo lhe conferiu solenemente o Prêmio de Direitos Humanos.
Se a construção democrática está sempre inacabada, a ação e as ideias de Plínio, como a de todos os sonhadores, cristãos ou não cristãos, servem de motivo e razão para o desenho futuro de todas as sociedades pacificadas na justiça.
Plínio inspirou essa certeza como esperança. Louvado seja.
28 sábado jun 2014
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Irmão de religiosa disse que ela só queria ter um julgamento
Em depoimento à Comissão da Verdade da subsecção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Ribeirão Preto, o frei Manuel Borges da Silveira, irmão de madre Maurina, que foi presa e exilada no México durante a ditadura civil-militar (1964-1985), disse que ela não teve direito a defesa durante o período.

Frei Manuel (na foto, ao lado de Feres Sabino), que mora em Uberaba (MG), esteve na OAB na tarde desta sexta-feira, dia 20. Ele também falou a respeito do suposto estupro que madre Maurina teria sofrido e a respeito da vontade dela, que era ser julgada para ser provada sua inocência.
O presidente da comissão, Feres Sabino, lembrou que a prisão de Maurina foi o que despertou o arcebispo emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, a iniciar o combate contra o regime militar.
O irmão da madre leu um trecho de uma carta que ela escreveu em 1970 ao cônsul geral do Japão em São Paulo, na qual acreditava que, se houvesse julgamento, iria ser provada a sua inocência e serem mostradas as atrocidades cometidas pela ditadura.
“Ela queria ser julgada, porque não aguentava imaginar não poder rezar de joelhos no país dela”, disse frei Manuel, que complementou: “Era muito mais que exílio, era banimento, porque foi retirada a nacionalidade”.

Domingos Stocco, presidente da OAB em Ribeirão Preto, que acompanhou o depoimento, disse que ficou impressionado com a falta do direito de defesa da madre durante a prisão e o exílio dela. “Ela não queria ir para o México, ela queria julgamento, ela pediu isso, o que mostra a total inocência dela”.
A respeito do suposto estupro que madre Maurina teria sofrido, o frei disse que, em conversas com a irmã, ela desmentia que foi violentada diretamente. “Sofreu assédio sexual, mas não mais que isso”.
Frei Manuel lembrou que a única acusação que a irmã tinha era de ordem econômica, por isso foi considerada subversiva. “Ela devolveu 15 recém-nascidos às famílias abastadas, que haviam sido deixados no Lar Santana. Ela argumentava que lá só era para atender os filhos dos necessitados”.
Texto de Leonardo Santos, publicado originalmente em: Revide Online. Fotos: Carolina Alves. Publicado em 21 jun. 2014. Link para o texto original aqui.