A visita e seu diálogo

A morte incide como um decreto secreto e final sobre o corpo de quem ela leva. E ela provoca um verdadeiro tsunami na alma de quem fica, ali como família, ali como amigos.

Essa situação do ir sem aviso surpreende até o médico, cuja profissão está sempre próxima dela, pois, ele cuida só da vida. E ela está grudada nela.

O médico pode perceber, sentir, avaliar, o tempo de vida de seu cliente. Às vezes, ele acerta, às vezes, ele erra. Mas de qualquer forma, ele é quem melhor sabe decifrar a cor da pele, a magreza, a truncada da respiração, a batedeira, a dor, o grito, a doença corrosiva do corpo humano. E sua frequência nos hospitais coloca-o assim num lugar de elevação, porque, às vezes, ou quase sempre, ele é a última esperança.

Assim pensando e refletindo, fui abraçar, na casa dele, o amigo Isac Jorge, que perdera, assim sem saber o porquê, a sua mulher, a Leila. Ela morreu, e pronto e só.

Na véspera, a voz dela com a variedade dos instrumentos, que tocava, alegrara mais uma noite na casa que sempre brilhou com seu brilho. E o Isac era o acompanhante da voz e da vida da Leila, até alcançarem os netos em idade adulta. Os tropeços e os sobressaltos da vida eles souberam enfrentar, juntos.

De madrugada ela se levanta para fazer café, o que não era incomum. E de manhã ele a encontra no chão da cozinha. Talvez o infarto do miocárdio tenha ocorrido duas ou três horas antes.

No chão frio da cozinha. Um corpo inerte que não responde nem corresponde a nenhuma exclamação, tornada grito, lágrima e quase um desespero.

Um casal de médicos!

Meu pai no leito do hospital, sufocado pelo câncer de pulmão, dizia que seu filho, médico, seus genros médicos, seus parentes médicos, todos eles não conseguiam curá-lo e tirá-lo dali. Uma frustração dele e de todos.

Agora, dois médicos, marido e mulher, que viveram a profissão até a idade da aposentadoria, foram surpreendidos assim, de repente, pela morte do outro. Sempre é uma má surpresa, porque é difícil aceitar aquele vazio da alma, o deserto exterior, que o outro ocupa naturalmente na relação amorosa.

O tempo – dizem – é o melhor curador da alma nessa circunstância. Ele sempre sopra um vento suave que faz não esquecer, mas dá uma forma de aceitação sem sofrimento. É verdade que a saudade emociona, mas não gera infortúnio.

Morrer sem aviso-prévio não é novidade. Mas ninguém acredita no aviso-prévio e, naturalmente, ele sempre é descartado, pois, se a vida é o instante ele sempre carrega a esperança de viver, mais e mais. Todos traçam planos, que as pessoas sempre se impõem, para se impor na vida.

Mas o sopro da alma desligado, a consciência desligada, a expressão corporal desligada, constituem um impacto aterrador para quem ama. Na profundeza do ser tem-se uma contradição. É a força do sentimento que não aceita o desligamento compulsório da mulher. Entretanto, racionalmente a vida continua nele com as mesmas relações de pai e avô e de médico escritor, que fez livros incomuns no saber de centenas e centenas de cirurgias, e lições preciosas para alunos de tantas gerações. Ele acumula reconhecimento e homenagens. E projeta planos para o Centro de Bioética, sobre a qual tanto escreveu, tanto divulgou.

Pois, então, ele encontrou a sua Leila assim caída no chão da cozinha, sem ter tomado o café. Sem vida, morta.

O abalo sísmico, que nasce da perda, deixa profundezas na alma do sobrevivente. Ele que, médico, conhece o perigo da depressão, já se previne contra ela, em autodefesa, já que esse perigo ataca por dentro da pessoa e fica nela, até quando?

A conversa foi longa, a que tivemos, pois, a experiência de igual perda é comum a ele e a mim. Derivou ela para as experiências do santuário do mundo espírita, e ele me contou um episódio ligado ao Chico Xavier, que o advogado Brasil Salomão ouvira e que levou o saudoso Saulo Gomes para sabê-la, numa tarde de farto lanche.

A família dele, Isac, residia na cidade mineira de Monte Carmelo, e um dia o já falado Chico iria, como foi, visitar a família de uma pessoa que trabalhava próximo dele, e que residia em cidadezinha próxima. E já corrida pelas bandas do mundo a informação de que o lenço que Chico Xavier tocava ficava perfumado.

O pai do Isac, que era ousado, logo que soube que Chico já estava na cidadezinha próxima, resolveu ir para saber se era verdade o que se dizia. E, lá pelas tantas, o velho Isac, quase atrevido, dirigiu-se ao Chico Xavier, dizendo:

Chico, coloque perfume nesse lenço?

A resposta foi surpreendente e direta?

Ele já está perfumado.

E o lenço estava.

Sarau pela paz

Pode-se dizer que a Academia Ribeirãopretana de Letras, hoje presidida pelo escritor Waldomiro W. Peixoto (1950-), agrega, como núcleo, o Proyecto Cultural SUR, que, fundado por poetas, esparramou-se pelo mundo, vibrando a veia da criação literária, como fator de ligação, entre pessoas e entre nações. Assim, a amarração profunda do humano faz-se pela palavra. No tempo de seu Festival, cada núcleo promove, simultaneamente, um encontro ou um seminário ou um Sarau, integrando-se nessa imensa participação. Celebra-se nela a fonte de seu surgimento e lança ao mundo sua proposta, repetida e renovada, de Paz.

A nossa Academia, no dia 31 de maio promoveu um Sarau sob o título “A PALAVRA NO MUNDO E SEU PODER NA CONSTRUÇÃO DA PAZ UNIVERSAL”, em que os participantes, membros ou convidados, apresentaram textos próprios ou fizeram a leitura de textos ou de poesia ou prosa.

O significado da proposta pode ser compreendido pela citação de G.W. Friedrich Hegel (1770-1831), que ensinou “(…) as ações se revelam também como discursos, porque atuam também sobre as representações. Porém, os discursos são atos entre os homens e atos essencialmente eficazes. Por meio dos discursos são empurrados os homens à ação, e esses discursos constituem então parte essencial da História”.

No texto que apresentei, há referência à proibição oficial do uso da linguagem neutra, surgida para escapar da indução do binômio feminino-masculino que implicitamente sugere superioridade de um em relação ao outro. Por exemplo, a pretendida linguagem neutra não recomenda que se escreva “Os diretores da Escola”, ela recomenda “A Direção da Escola”.

Com isso apresento-lhes o texto que li naquela noite de celebração pela Paz. Ei-lo:

A palavra é ação. Quando o romano Cícero (106-43 d.C.) falava, o povo dizia “como fala bem!”. Quando o grego Demóstenes (384-322 a.C.) falava, o povo dizia “Marchemos!”.

Mas nesse instante em que a nossa Academia celebra o tema “A palavra no mundo e seu poder de construção da Paz”, proposto pelo Proyecto Cultural SUR, cuja representante no país é a nossa Rosa Maria Cosenza, cumpre-me o dever de indicar o muro de aço erguido atualmente contra a inteligência e a inspiração que pressupõem liberdade criadora.

Em recente vídeo, o Secretário de Fomento de Políticas Culturais do antigo Ministério da Cultura, o mesmo que assinou, no ano passado, a Portaria que proíbe o uso da linguagem neutra, nos projetos financiados pela Lei Rouanet, discursou afirmando que a verba de um bilhão e duzentos milhões de Reais, derivada do Fundo dessa Lei estimulante da criação cultural, seria investida no fomento à cultura das armas. Elas não serviriam somente para nos defender do bandido da rua, mas especialmente das políticas que atacariam a liberdade, entenda-se as políticas do Estado Democrático de Direito. Vê-se, assim, que em nome da liberdade de expressão, essa heresia autoritária, inacreditavelmente, foi declarada em palanque filmado.

Não constitui teoria de conspiração alguma, portanto, registrar que a palavra livre defronta-se com a política oficial do Brasil, que atualmente sufoca a cultura nacional, através dos servidores da estupidez e da maldição autoritária.

A percepção dessa realidade é aterradora, pois, se um dia celebrei a palavra como verbo da verdade pessoal e coletiva, também disse, em outra ocasião, que a Música é o esperanto da Arte, pois, como toda manifestação da Literatura, ora como pedido de socorro, ora como expressão de felicidade, ora como resistência ou como a dor do coração humano, ou como esperança rediviva ou como jura do amor eterno enquanto dura, todas essas expressões invocam a solidariedade humana, ou o deserto delas.

O traidor como vítima de si

Um dia, numa viagem de avião para São Paulo foi feita uma pergunta ao senador Amaral Furlan, sobre aquele Prefeito de Campinas, que era do MDB, e foi expulso, por defender o Ato Institucional nº 5, e entrara na Arena, partido do senador. Ele foi fulminante:

– Nós da política amamos a traição e odiamos o traidor.

Essa lição da experiência veio à baila quando assistimos o infortúnio político do ex-governador de São Paulo, Doria. Como candidato a governador foi apadrinhado por Geraldo Alckmin, que era candidato a Presidente da República, naquela eleição de 2018. Naturalmente, o apadrinhado apoiaria o padrinho. Mas Doria não teve nenhum escrúpulo, e lançou a dobradinha da ocasião BolsoDoria, ambos venceram a eleição. Doria sai com a peja de traidor. Não foi só Geraldo Alckmin quem sentiu o golpe, pois as lideranças tradicionais do PSDB, que não o aceitaram, tiveram a sensação de que o Partido estava como um esqueleto sem alma. Recentemente, ele foi governador e com a força de seu cargo conseguiu ganhar as prévias para ser o candidato a presidente da república. Tão logo deixou o cargo para fazer a campanha ambicionada, sua base política se esfacelou, e o seu próprio vice, que assumiu o comando do estado de São Paulo, declarou ser favorável a um nome da chamada terceira via. Não se sabia quem, mas Doria não era. O suplício da rejeição, que tentou superar, internamente, ele não o conseguiu. Foi submetido a uma fritura pública incomum, e é rejeitado pelos partidos que convergem para uma terceira via. Se o atual governador colocou pá de cal no sonho presidencial de Doria, o fato é que nas pesquisas de opinião ele não saía do lugar.

É certo que o desempenho dele, desde o início da pandemia, foi o ponto forte do contraponto que fez contra o nome da assombrada dobradinha, cujo autor a definiu como “gripezinha”, verdadeiro anúncio de sua desastrada administração da crise pandêmica, tal como da sua gestão da política federal.

Mas, se a traição inicial contra seu padrinho Alckmin, atual candidato a vice-presidente da república, foi fruto de um erro no capricho da escolha partidária, o fato é que seu apadrinhado Doria fez dobradinha com o Bolsonaro na eleição de 2018, sendo eleito governador.

Ele fez a tal dobradinha, quando o PSDB tentava manter o mínimo de coerência com o espírito predominante de seus fundadores e de sua história. Entretanto, a intoxicação eleitoral foi de duplicidade corrosiva: contra o seu padrinho e contra o mínimo ético partidário. A cartilha política que se chama lealdade sofreu o estupro e daí saiu o monstro liberado pela deslealdade, para mastigar seu próprio pai.

O tamanho político de Doria não é maior, nem menor do que Bolsonaro. Ambos de seu jeito e maneira estão no mesmo patamar de mediocridade, levando de roldão o tal ministro da economia, que já teve uma leva enorme de colaboradores do ministério fugindo dele e do presidente, pela lerdeza com que não resolviam nada de substancial para o Brasil, mesmo que as soluções propostas fossem contrárias às da oposição política do Brasil.

Nenhum dos dois tem a elevação ética e política para aspirar ou governar o Brasil. Nenhum tem a mínima ideia de como a riqueza brasileira de solo e subsolo pode ser revertida, em benefício da população. Muito menos postura e compostura eles têm para ocupar o máximo cargo de magistrado político do país, que precisa de vocação de estadista. Não de um atacante de baixa categoria.

Por sua vez, Alckmin, que honrou seu posto como vice de Mario Covas, foi um sucessor que se não teve a largueza de visão, que tantos reclamavam, teve, sim, a atuação de dignidade, da compostura, e do equilíbrio, tanto como vice, como governador de São Paulo.

Se errou na escolha, de nenhuma forma ele merecia o tratamento de afoita deslealdade, que lhe destinou o apadrinhado, que ocupava um lugar de discrição máxima, em algum lugar do qual Alckmin o arrancou, fazendo-o seu sucessor.

O estigma de traidor acompanhou o infeliz, até o momento em que em verdadeiro clima de velório desistiu da sua candidatura a presidente. Esse estigma tem força de expansão, democratizando e intoxicando com seu malefício outras siglas partidárias e tantos políticos, que refletem a repulsa de parte da população. Ninguém confia nele.

Quem observou a eficiente discrição de Alckmin como vice, sempre o elogiou pelo espírito eficiente e cooperativo com o titular do governo, jamais praticando ato algum que pudesse colocar em dúvida sua lealdade e a maneira respeitosa como tratava especialmente seus partidários, sem desmerecer os que lhe faziam oposição.

A traição constitui o fantasma aterrador das pretensões de Doria, para qualquer ambição sua, no mundo da política.

E Alckmin, candidato a vice, oferece o seu patrimônio político ao adversário de ontem, para continuar sendo a pessoa equilibrada, declarando que qualquer diferença é aparada, quando se trata de defender a democracia, e que garantiu a ele uma vida política vitoriosa.

E em matéria de ética, Doria e Bolsonaro são irmãos siameses.