7 a 1

Esse placar é a lembrança de uma derrota acachapante da seleção nacional do Brasil para a Alemanha. E a Copa se realizava aqui, em nosso campo e com a nossa torcida.

Esse mesmo placar é justamente o resultado da autorização dada pelo Tribunal de Contas da União, para privatização da Eletrobras. E o patrimônio público acumulado, durante anos, será oferecido à ganância privada.

Essa empresa estatal, tal como a Petrobras, tem seus lucros e dividendos voltados à finalidade social pelas quais elas foram instituídas, ou seja, devem ser revertidas em políticas que favoreçam e promovam a maioria da população brasileira. Elas não existem para engravidar monstruosamente de lucros a pança de investidores privados, que têm direito aos lucros, sim, mas iguais aos praticados internacionalmente.

Vê-se: toda empresa privada tem função social, que existe com a finalidade de lucro. Toda empresa estatal existe para levar às últimas consequências essa função social.

Mas, sob a continuada pressão do governo, o TCU acaba de autorizar a entrega danosa da Eletrobras à ganância privada. O comandante dessa entrega é o Ministro da Economia, que é pior que o presidente, pois aquele gosta de vender o patrimônio público por migalhas, enquanto o outro sabe atacar tudo menos o que interessa à população brasileira, jogando a culpa nos outros, escondendo o desastre, que está em sua política neoliberal, que não deu certo em nenhum país do mundo.

E o Ministro vende para pagar dívida púbica, prioritariamente, como financista que é, e que já causou péssima impressão aos economistas norte-americanos, que assistiram lá o seu despreparo, em palestra não recente.

Mas se o resultado de 7 a 1 no futebol foi assumido como um sinal de alerta, no plano jurídico emerge a competência jurídica, a integridade moral, a ética cidadã do Ministro Vital do Rêgo, que declarou os erros grosseiros no balanço apresentados, e que atacam o interesse nacional, periclitando com novas e prováveis dívidas do Estado brasileiro.

A Eletronuclear, que deve dois bilhões e setecentos milhões à Eletrobras, seria objeto de uma privatização, através de forma dissimulada, entregando irresponsavelmente a terceiros o centro da política nuclear do país. Não existe país que tenha entregado a terceiros a sua política nuclear. Eis como a força do “mito” apodrece o patrimônio público.

O Ministro Vidal do Rêgo refere-se ao valor da Usina de Itaipu como valor de bagatela.

A contradição nesse arraial da arruaça institucional é que o valor da energia elétrica está subindo tanto, como o da gasolina e dos combustíveis, que a Câmara dos Deputados, até ela, declarou, por conta de seu “burgomestre”, que vai intervir suspendendo atos do Poder Executivo. Essa promessa de intervenção anima qualquer investidor, nacional ou internacional, a investir na Eletrobras, ou no Brasil? Investidor quer negócio jurídico estável e seguro, num país sem arruaça institucional.

Essa miséria moral que assola o país não tem coragem de olhar a histórica atitude do Ministro da Guerra, general Canrobert Pereira da Costa, com seu manifesto público, durante a Constituinte de 1946, que evitou, concomitante com dois discursos do então deputado constituinte Goffredo da Silva Teles, a entrega da Amazônia brasileira a um Instituto internacional, no qual o Brasil não teria nenhuma regalia, nem mesmo uma versão em português do documento oficial da entrega.

O engodo de que a tarifa da energia elétrica será menor não encontra exemplo em país algum que privatizou suas empresas.

Não podemos viver com esse fantasma do 7 a 1, que nos advertiu sempre, e que agora representa a entrega vergonhosa do patrimônio público, representado por empresas que foram defendidas, por civis e militares, porque eram e são estratégicas para o país.

E a Eletrobras teve lucro de R$ 5,7 bilhões, segundo o jornal Valor Econômico de 11 de maio do corrente ano, e com a seguinte manchete “Lucro das estatais rende R$ 46 bi em receita ao governo.

As urnas e a arruaça institucional

Nunca faltou general para golpear as instituições democráticas do país. Nada de generalizar. Henrique Batista Duffles Teixeira Lott (1894-1984) é o símbolo da defesa histórica da democracia, e tantos outros que defenderam o monopólio estatal do petróleo e a Petrobras, como empresa estratégica do Brasil. Lott garantiu a posse de Juscelino Kubitschek.

Mas desta vez está acontecendo o inimaginável. Os militares que estão no governo estão corroendo a legitimidade das instituições. Ora contra o Supremo Tribunal Federal com artilharia de ataque, que intoxica a opinião pública, como se erro fosse motivo de destruição por míssil autoritário, e como se eles não errassem, e não tivessem na intimidade da instituição o que humanamente acontece nas outras.

Agora, a vocação guerreira volta-se descaradamente contra as urnas eletrônicas. Após ter indicado o general Herbert Garcia Portella do Centro de Defesa Cibernética do Comando de Defesa Cibernética, como representante das Forças Armadas, na Comissão de Transparência das Eleições, instituída pelo Superior Tribunal Eleitoral, o Ministro da Defesa, que tem se mostrado submisso à vocação autoritária presidencial, quer ser o substituto do general técnico. O interesse é o de politizar a Comissão e criar os embaraços suficientes para intoxicar o povo sobre a inidoneidade das urnas. É a primeira vez que um Ministro se rebaixa para participar de uma Comissão de um outro Poder.

É absolutamente inconcebível que, após tanto tempo, trinta anos, de utilização das urnas eletrônicas em eleições livres, festejadas no mundo, como opção de avanço, comparece esse pequeno time de fardados, querendo deslegitimar as eleições, apresentando essa jogada suspeita.

O golpe agora é deslegitimar as eleições, que permitiria mais fácil ataque à incipiente democracia, que dia a dia periclita no fio de seu equilíbrio, onde a mediocridade governamental se sustenta com mentiras, ousadia, o manto de sigilo sobre informações que a cidadania tem o direito de saber.

É uma quadra vergonhosa da história brasileira.

Os atentos militares ficam silenciosos sobre as milícias do Rio de Janeiro, que criaram e espalharam raízes, e estão aumentando seu arsenal, com as facilidades criadas pelo governo federal para importação das armas, propiciando a formação de verdadeiros “exércitos paralelos”.

Mas o perigo fabricado não é das milícias, nem o retorno das doenças, para cuja erradicação o sistema de vacinação nacional merecera reconhecimento, como sarampo e poliomielite, e tantas outras; não, o perigo não está no envenenamento da população com mais de 500 agrotóxicos liberados, inclusive os rejeitados nos Estados Unidos; o perigo não está no orçamento secreto que dá R$ 30 bilhões para alegrar os deputados, conduzidos como gado pelo Presidente da Câmara dos Deputados, não; o perigo não está nos salários astronômicos recebidos pelos generais do governo; o perigo não está no presidente enganando o povo, agredindo Ministro e o Presidente da Petrobras, para desacreditá-los perante a opinião pública, como se eles fossem pessoalmente os culpados pelo preço das gasolinas e seus derivados, quando a responsabilidade é dele e de seu “bando”, com sua política neoliberal.

O fascismo vem devagar, como o 02 falou na televisão, e no Brasil está mais do que claro que ele avança. E o grupo de generais do poder não suporta a ideia de sua destituição. Vão fazer o diabo para garantir o ex-capitão, no lugar onde está. Afinal, ele os comanda e nunca os respeitou, ele é manifestamente alérgico aos controles e limites legais, só pensando nas garantias da família e dos amigos e, ainda, no grupo que o suporta no governo. Todos ganhando bem e nada faltando no banquete do poder.

Num país em que a arruaça institucional é gerada pelo próprio chefe da nação pode-se esperar o que senão mais arruaça?

Eis o que o Brasil atravessa graças à generosidade da anistia, que tantas vezes defendi como “o desarme do ódio”. Desse jeito, lá adiante, com tudo que haveremos de passar, a anistia, como jeitinho de esquecer, inclusive de barbaridades, poderá ser substituída facilmente por decisão de maior eficácia histórica, na perspectiva da construção democrática.

A atualidade do bispo do século IV

Nem mesmo naquele tempo virtuoso em que eu estava próximo da doutrina social da igreja, para aprender a distinção entre o humanismo cristão e o humanismo marxista, sob o testemunho missionário do padre Celso Ibson de Syllos, não me dera conta da existência histórica de São João Crisóstomo, um bispo de Constantinopla, lá no século IV, cujos sermões revolucionários serviram de motivo para ser ele exilado, justamente naquele período, em que o cristianismo passou a ser de religião aceita, para logo depois se tornar a religião do Império Romano (384). Mas recentemente Mario Palumbo dele me contou incisivamente, mas com a ternura de seu espírito.

Veio depois a live de Eduardo Moreira, esse engenheiro, ex-banqueiro de investimentos, autor dos livros Desigualdade e Economia do Desejo, que um dia resolveu largar tudo e conhecer o Brasil. E para ingressar nessa intimidade, histórica, social, humana e cívica, foi visitando e dormindo em aldeias indígenas e acampamentos do Movimento Sem Terra, descobrindo, não só o seu humanismo não totalmente aflorado nele, como também o conduziu ao dever autoimposto de adotar tecnologias de informações, para conscientizar as pessoas e pregar a solidariedade do ser humano, que existe independentemente de qualquer bandeira, religiosa ou política, já que o ser humano é a imagem e a semelhança do outro.

Mas essa live, a que não pude assistir, teve a participação do Pe. Júlio Lancellotti, cuja experiência missionária dedicou-se sempre aos moradores de rua, e ninguém é melhor testemunha do que aquele que sabe, conhece e sabe viver o infortúnio alheio, visitando-o diuturnamente, e o assume como razão e sentido de seu magistério.

A live contou ainda com o Pe. Leonardo Boff, o teólogo cassado pela igreja que continuou, já casado, sua vida, falando, escrevendo, professando sua fé, como mestre da teologia da libertação, aquela rejeitada pelo Papa que não assumiu, no plano temporal, o fermento da igreja no íntimo da carne viva da injustiça. Ele se desligou dela, mas só formalmente.

Essas pessoas se somaram para o lançamento do precioso livro, sob o título A Riqueza e a Pobreza, editado pela editora Paz e Terra, cujo conteúdo compõe-se de quatro sermões do bispo São João Crisóstomo, que verbaliza a história de Lázaro, encarnação de todas as misérias físicas, sentado à porta da rica mansão, por cuja porta circulava o dono da arrogância e das riquezas.

Lázaro, paupérrimo, mas proprietário de mil doenças, sentado ali diariamente era uma pessoa invisível.

A reflexão de Lázaro é atualíssima.

O Brasil, rico até em terra, sol, ar, água, vento, é o nono país do mundo, em desigualdade social. Com os pretextos mais infantis, donas das superfícies das análises sociais, as nossas classes abastadas, nossas lideranças civis e militares, não sabem como e qual política fazer para atender os milhões de lázaros, que estão à porta de nossa consciência, forçando para despertarmos para um patamar de redenção social, na liberdade e na justiça, pagando com a compreensão criadora e solidária esse passivo social. No fundo, é o medo da perda de privilégios históricos, que fecha o olhar e embrutece a consciência.

São João é absolutamente radical, dizendo ser fruto de crime o que sobra daquilo que é necessário para viver.

Tão atual ele é que, hoje, os cretinos o chamariam de comunista, e São João é do século quarto, teria morrido no ano 407, e Karl Marx viveu e morreu no século XIX.